Sem medo de chorar

Temos uma crise de mediadores, de descrédito dos grandes arautos que nos ajudavam a interpretar o mundo.

Isabel Capeloa Gil, Público, 17.08.21

 

dizemo-nos muito sociáveis, mas na primeira insegurança; quando já parecia que todos acreditavam em nós, já estamos virados para o desabafo: meto-me na minha vida, na minha casinha e eles que se metam na sua. isto está difícil e cada um que se sirva das suas dificuldades.

terei que te voltar a recordar, em voz alta, o essencial do segredo que nunca queres desvendar:

ontem como hoje, é importante sonhar para viver.

ontem como hoje, viver em duplos sentidos e em caminhos prenhes de duplicidade é viver.

em caminhos paralelos… são ausência de vida

lá vens tu com os teus lirismos!

lirismos? alertas da alma para as tremendas asneiras do viver. assim como este alerta de Diogo Queiroz de Andrade, no seu texto de editorial (Público, 17.08.19): entre os habitantes da Amadora, um cabo-verdiano tem 19 vezes mais probabilidades de estar preso do que um português. Leu bem, 19 vezes. Não é um acidente estático nem uma realidade subjetiva, é um facto incontornável que nos deve obrigar a perceber o que estamos a fazer mal.

ontem como hoje, ver e sentir na ausência faz parte da vida.

ah! lirismos, não? repara no que o sociólogo Nelson Dias escreve na edição de agosto do le Monde diplomatique: como [Marcelo Rebelo de Sousa] reconhece, este legado [“saldo francamente positivo do regime democrático português”] anda, no entanto, a par de uma acentuada erosão da confiança nos agentes políticos e nas instituições democráticas, no seu funcionamento, na capacidade de cuidarem do bem comum e responderem às necessidades e expetativas das populações.

 

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Indústria do medo

foto:istoe.com.br

A viragem populista é inseparável da crise financeira de 2008 e da demonstração do declínio relativo das potências ocidentais perante a emergência das potências asiáticas.

Carlos Gaspar, Expresso, 16.11.12

 

O cruzamento da vontade com o terror deixa as imagens da noite num tempo de imagens. E sem poder acertar as horas.

É terrível; mesmo que um relógio vermelho bata a hora fatídica e não se sinta.

Acredita! Olha bem para estas palavras do músico Samuel Úria (in Madre Media, Sapo 24, 17.08.18): 2017 não é nada. É só um número vago, mesmo que seja recordista – o maior numeral de todos os Annis Domini. É o ano mais contemporâneo, mas com cada vez menos características para que lhe chamemos avançado. (…) O mal renova-se e confunde-nos a cronologia. (…) [o atentado em Barcelona] é uma triste confirmação para o pessimismo com que escrevia.  Os ódios são tão significativos que tornam este ano insignificante. 2017 não é nada porque não chegámos a lado nenhum.

É terrível; mesmo que um relógio vermelho bata a hora fatídica e não se sinta. Sabes?, tudo fica desfeito, as pessoas sem possibilidade de sentir como se dá início ao princípio da tarde. Ou poisar o piano lá para trás na prateleira cheia de pó.

O pior é que há tanta gente a fomentar a destruição dos fins de tarde; gente com responsabilidades enormes nos dias. Gente que fomenta destruições…

Há disso sim senhor; pessoas que não vivem sem a agitação oca. Mas estás a pensar em alguém em especial?

Estou a olhar para estas palavras de Pedro Filipe Soares (Diário de Noticias, 17.08.17): a tragédia de Charlottesville não pode deixar ninguém indiferente. A manifestação da extrema-direita foi tudo o que tinha prometido: homens e mulheres armados, muitos exibindo equipamento militar, com bandeiras nazis e cruzes suásticas, cartazes com insultos racistas e antissemitas, mensagens homofóbicas e muitos membros do Ku Klux Klan. A reação do presidente dos Estados Unidos da América a estes acontecimentos foi miserável.

Ficamos todos sem palavras, não é?

Mundo em turbulência

Eu não acredito absolutamente nada num mundo que está ser governado por gente em que não acredito nem quero acreditar.

Pilar Del Rio, E, 17.04.22

 

perto do descalabro há um regresso – afinal não tão negativo como o que nos dizia ontem a noite –, doce saber do regresso; muito mais forte do que a eternidade que pintamos. será o início de um novo amanhã?

tomara!

a poluição luminosa, ruidosa e malcheirosa; quase reinando. eternamente. folhas que calam a noite; folhas que não cabem na porta de uma oportunidade.

achas mesmo que há um regresso? se achas, desafio-te a leres a edição de maio deste ano do le Monde diplomatique. Olha bem: há hoje no planeta 65 milhões de refugiados e deslocados.

e? qual é a tua dúvida?

a minha dúvida, pá!? refugiados que tem a ver com poluição?

andas mesmo a dormir! olha-me para estas palavras de quem já acordou para uma terrível realidade: criamos um futuro sustentável quando investirmos nos pobres, e não quando insistimos no seu sofrimento (Bill Gates, empresário e filantropo).

E o senhor que criou um império enorme tem razão, não tem?

Tem, sim senhor! Já agora desafio-te a olharmos juntos para estas de um enorme senhor, Steppen Hawking, de seu nome: as ações de Trump podem levar a Terra à beira do abismo e transformá-la em Vénus, com uma temperatura de 250º e chuva ácida. Está na revista Visão do passado dia 6.

olha que é um senhor que sabe muito, mas muito bem do que fala, sabes?

Se sei! Desde que há anos li Uma Breve História do Tempo – caramba! Já foi em 1990! Como o tempo passa para nós humanos – que não deixo nada por ler que venha do senhor que já ocupou a cátedra de um outro grande senhor: Isaac Newton.

E se o senhor Stephen tiver razão?

 

 

Sons dos ditadores; aconselha-se prudência

Qualquer pessoa que pense que pode resolver os problemas deste mundo com isolacionismo e protecionismo está a cometer um grande erro.

Angela Merkel, in Público, 17.07.17

 

Tenho vergonha de ser europeu numa Europa que fica à espera que um senhor de nome Donald venha a Varsóvia – Varsóvia, capital da Polónia, Polónia populismo, populismo Donald Trump, Donald Trump caos, dores permanentes – dizer que o “ocidente enfrenta ameaças existenciais” – Infelizmente o senhor até tem razão! E goza com essa anomalia do dia-a-dia dos europeus; com essas dificuldades no campo do existencialismo dos estados e dos cidadãos –, vai daí, aterra num dos países mais populista da Europa e entra de cabeça a exibir os populismos que quer para uma coisa vaidosamente só para certos eleitos com nom de G20.

Deve ser por isso que a senhora Merkel não teve – nem terá nunca; enquanto os ismos bem ao gosto dos senhores Putin e Trump por aí andarem livre a enganadoramente à solta – “a cimeira que ambicionava”. (Vale a pena ler com muita atenção – e apreensão o trabalho jornalístico inserido nas páginas 2, 3,4 e 5 do jornal Público do último dia 7, do mês 7 do ano 2017 (tanto sete!, não é?).

Ah! o que foi lamentável foi mesmo as cargas policiais. Vinte mil policias?! Porra!

Seria para esmagar as pessoas que – natural e democraticamente – têm direito a mostrar o descontentamento pelo caos que reina no planeta; por culpa de uma casta vaidosa e destruidora?

 

Paradigma do urbanismo

As pessoas começam a pensar por si mesmas e as suas canções religiosas estão gradualmente a desaparecer.

Kmut Hamsun, in Mistérios

 

Há uma manchete do Jornal de Noticias (17.07.01) provocar-me insónias; a dizer-me que, tal como cantam os senhores dos Xutos & Pontapés, o mundo anda ao contrário. Querem ver?

Seis acidentes por dia com bicicletas

 

Assim, como poderei salvar o planeta?

E continuarei a existir enquanto decisores políticos continuarem a teimar em dar prioridades aos poluidores automóveis; que tudo matam.

 

Ah! A semana continua a dar noticias trágicas para os utilizadores de bicicletas: esses seres estranhos e invasores do espaço dos senhores poluidores e destruidores de vidas.

Lamentável!

Não devemos ter medo *

O envelhecimento é um problema novo. O aumento da longevidade dos portugueses e dos seres humanos em geral, tem muitas coisas boas… mas tem pelo menos uma má: estão a aumentar muito os casos de líderes carismáticos que dão provas de não saberem sair no timing certo.

Manuel Serrão, editorial, T Jornal, junho 2017

 

 

* do futuro assombrado pelo futuro.

Esperança há demasiado tempo negada

Peço perdão por todas as vezes que os cristãos, perante uma pessoa pobre ou diante de uma situação de pobreza, olharam para o outro lado.

Papa Francisco, audiência do Jubileu das pessoas socialmente marginalizadas.

 

1. O I dia mundial dos pobres – o atual líder católico não para de inovar – é só no próximo dia 19 de novembro, mas Francisco já publicou a sua mensagem: não amemos com palavras, mas com obras. Tem data de 13 de junho e urge olhá-la com toda a atenção. Principalmente por parte dos presbíteros que por aí circulam feitos donos dos ‘seus’ cristãos – amorfos, quase todos! – que os endeusam em paroquialidades de meter dó. Basta (só) tirar os pés de casa para confirmar de forma tremendamente realista e dolorosa, este retrato dos líderes católicos locais.

 

2. Desde logo, o papa que abanou a história romana; aquela que sempre rejeitou líderes que não continuassem a ‘louvar’ os favores de Constantino, quer uma “nova visão da sociedade”, onde as ”obras concretas” estejam por cima das “palavras vazias”. E não tem dúvidas: “nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes setores da sociedade no mundo inteiro”.

 

3. Ou seja, importa que aqueles que levam o “corpo de Cristo” para as suas liturgias – seria tão bom terem-no presente nos seus dias estranhamente agitados, não seria? – não tenham dúvidas: se “não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez”.

Que olhar o de Francisco!

 

4. Seria tão bom que o líder católico tivesse a possibilidade – e não tem (é humanamente impossível ser omnipresente e pouca gente lá em Roma está interessada em mostrar-lhe as realidades violentas do seu rebanho – de olhar para alguns dos seus presbíteros que – em momentos de oportunismo mediático – fazem peditórios para pobres (que ignoram e, na verdade, nunca conhecem porque os obriga a sair do comodismo da mesa lá da residência) e depois deixam tudo a estragar-se nos seus armazéns onde – quase todos – estão impedidos de entrar.