Alma de uma casa

foto: João Porfirio (Sol)

O que me não maravilha são todas as insolências e as perversões que os poderes económicos praticam no mundo e as guerras que criam.

Pilar Del Rio, E, 17.04.22

 

Portugal mostra-se, sempre, um país simpático; acolhedor e solidário. E isso, caramba! é tão bom, não é?

Por isso, nos fóruns internacionais o nosso país é apontado como exemplo no que diz respeito ao acolhimento de refugiados. E aí fico feliz por ser português. Afinal a solidariedade lusa é uma marca que vem de longe!

Entretanto, o tempo passa, o mundo gira e a realidade vai-nos dizendo que dezenas de refugiados esperam pelo MAI [Ministério da Administração Interna] – (título do jornal Público, 19.01.11).

Parece que tais atrasos estão na mão do senhor Eduardo Cabrita, ministro com a tutela daquele ministério. É ele quem autoriza o estatuto de refugiado. E a coisa parece que não tem funcionado…

E eu a pensar que um governo de esquerda podia ser muito mais solidário, menos burocrata e prático e rápido nas ajudas às pessoas.

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Alquimia perdida

imagem: blogoosfero.cc

Um quarto de século depois da queda do Muro de Berlim os muros regressam à Europa. Uns são de betão a arame farpado, outros, mais insidiosos, são alimentados por ignorância.

Timothy Gaston Ash, Courrier internacional, janeiro de 2016

 

1. Tenho medo do devir? Tenho, sim senhor! Do devir que a extrema-direita e populista quer para todos nós que crescemos numa Europa unida e solidária – e que já vão mostrando as suas garras.

2. Leio com receios frios e assustadores a peça – os partidos anti-imigração têm de tomar o poder na UE, diz Orbán [Viktor; responsável máximo do governo na Hungria] – com assinatura de Clara Barata (Público, 19.01.11) e paro com medo do amanhã; do caos que por aí já espreita e nos vai destruir; apagando-nos.

3. Retenho, do lide da peça, estas palavras: Hungria, Itália e Polónia movimentam-se para formar aliança a pensar nas eleições europeias e também no controlo das instituições de Bruxelas. Perco por completo a esperança no devir.

4. Falta pouco – as eleições para o parlamento europeu são já em maio – para sermos esmagados; à boa maneira do senhor Adolfo e seus comparsas. E nós a ver futebol, telenovelas e outros entretinimentos; como eles gostam! Lembram-se dos famosos três Fs do senhor de santa Comba?

 

Nota de rodapé: se o senhor Macron é o líder pró-emigração, como diz o tal Órban – por Budapeste como será o devir dos cidadãos europeus com um senhor assim?

olhar da semana

Às vezes, cada vez mais vezes, Brito, a minha aldeia natal, assoma-se violentamente distante; outras, poucas, na verdade!, tão próxima. É nesse ápice que pincho para os tempos de escola. E tempos de escola primária é ter em frente, no nosso querido recreio, o monte maior das redondezas (por aquela altura era, seguramente): o monte de Penedas. Hoje, muito para além de uma memória distante e fria, diga-se, é uma elevação seca e fleumática onde nada há para além de um parque de estacionamento. Privado. Nada mais. Nem altura tem, na verdade! Mas entre uns seis anos de sacola castanha às costas e os dias de hoje tudo é tão diferente. Violentamente desigual e díspar. E Brito, sinceramente, é cada vez mais uma paragem no tempo; distante. E convencida de que civilização é destruição.

Ah! Esta foto é de 21 de janeiro de 2007.

Ironia triste

Diz, quem crê, que o Senhor dos Serôdios é um santo que dá resposta ao tardio, aquilo que teima em não acontecer em tempo certo.
Será que temos que apelar ao santo para que se faça em tempo certo o que os mortais que nos governam não conseguem fazer em tempo útil [crematório no cemitério de Monchique]?

Torcato Ribeiro, Mais Guimarães, 18.11.14

Curvas da existência

Como todos os impérios que terminaram, estamos em processo de ruina.
Michael Moore, E, 16.06.18

 

Os dias estão violentos; cada vez mais perigosos.

Tens toda a razão. E sabes que nos conduzem a toda a pressa para o fim?

Concordo inteiramente contigo. Olha para estas palavras de Clara Ferreira Alves (E, 18.09.22): Só a gente que vive em íntimo contato com a violência da água, da terra, do fogo e do ar, muita desta gente tribal e rural, ocupada com a realeza do trabalho manual e afastada da sociedade digital, escuta o silêncio e a ameaça que acontecerá.

Subscrevo por completo, sabes?

Também eu, por isso as vinquei.

Mas, sabes?, o mundo está mesmo numa total ebulição. Repara nesta afirmação: Donald Trump vive nesse mundo da fantasia onde só as suas emoções contam, e, portanto, só a sua realidade é real. Mas também diz aos outros: a vossa realidade não é a real. (Stephen Colbert, E, 18.09.29)

 O senhor Stephen tem toda a razão, não tem?

Se tem!

Pronto, meu caro! Valter Vinagre (Ípsilon, 18.09.28) é que tem razão: nas sociedades desenvolvidas, enquanto valorizamos o bem-estar vamos perdendo uma certa religiosidade. Alguns destas manifestações podem estar associados à procura de uma nova espiritualidade.

Aproximação rasante

 

À esquerda, o cimo do terreiro é pisado por todos os homicídios e todo o fragor de desgraça escreve a sua curva.

Jean-Arthur Ribaud, in Iluminações

O futuro é tanto de nós.

Dantes não havia robôs, mas existiam futuros. Muito previsíveis.

Agora que assisto agoniado à linguagem sem coluna vertebral que desenhas ao portão da noite percebo que o futuro que tanto sonhamos acabou. Olha com atenção para aqui: há um relatório da responsabilidade da Agência Europeia para os Direitos Fundamentais que não para de me criar insónias…

Ui! E então?

Como estava a dizer… sendo certo que aquela agência europeia denuncia vários casos de exploração laboral em Portugal (título do Jornal de Noticias (18.09.05) – como seja um trabalhador português, “em situação irregular, que foi obrigado a esconder-se durante três horas e que depois precisou de receber assistência médica” – o que me faz transpirar de raiva é não saber por onde anda a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). Mas os relatos são tantos que fico com medo de ser português no país onde o governo do senhor Costa fala de rosas lindas no que concerne à diminuição do desemprego.

São seis da tarde e eu, sentado num banco de pedra comprido e debruçado sobre uma mesa de pedra fria, vou lendo mais um autor maldito. Russo. À espera de encontrar o primeiro pecado da escrita. Os melros andam calmos, procuram somente comida para os filhotes. E eu fico a escutar o silêncio todo.

 

Quadro das origens

Rir a caminho da sepultura é absurdo ou é o único comportamento concebível?

Ricardo Araújo Pereira, in A doença, o sofrimento e a morte entram num bar

 

Dilemas com as pessoas (mesmo o povo mais estranho) da minha geração?

São tantos!

É uma geração parva; porque pensa dominar o mundo e os outros. É uma geração cega; incapaz de atender e olhar com atenção para os mais novos; cada vez melhores e mais bem preparados e capazes de fazer muito e melhor. É suicida a minha geração; desconfia de tudo e de todos porque perdeu a confiança em si. Há uns tempinhos; na verdade. Infelizmente a minha geração está à beira do abismo. E teima em continuar a pensar que domina o que sonhou. Está à beira do abismo e continua iludida e convencidamente a berrar e a gesticular como se continuasse eternamente a dominar o mundo.

És um exagerado!

Sou? Olha-me para isto A democracia liberal na união Europeia anda há tempo de mais a representar o papel de sapo na penal que aquece lentamente. De ataque em ataque, personagens como Matteo Salvini ou Viktor Orbán vão aumentando a temperatura das suas ameaças sem que as democracias europeias se indignarem, sem que reajam.

Manuel Carvalho, editorial, Público, 18.08.29

Ups! De que falas tu? Que merdas tão estranhas; violentas!

Achas mesmo? Atenta, então nisto: A urgência ecológica continua a ser subalternizada pelos governos, funcionando como uma flor na lapela de boa consciência logo ultrapassada pelos constrangimentos da agenda económica.

Vicente Jorge Silva, Público, 18.09.02

Ui! Percebo agora, muito bem o que aconteceu em França:

Nicolas Hulot

Para não querer mentir a si próprio, o ministro do Ambiente francês demitiu-se em direto. Cansou-se de ser a flor na lapela de Macron, a quem acusou de falta de compromisso com o ambiente e submissão a grupos de pressão.

Valdemar Cruz, E, 18.09.01

Ah! A minha geração é a que está na política local e nacional, convencida que os outros são empecilhos para as suas vaidades.

Preocupações irrelevantes?

As tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o futuro

Machado de Assi, in O Alienista

 

Um pouco por todo o território vimaranense há autoestradas cruzando aldeias e lugares lindos. Essas vias rápidas passam em muitos sítios sob vias mais curtas e muito mais lentas, em viadutos construídos aquando do nascimento dessas autoestradas.

E tem sido (mais ou menos) hábito construir ou colocar barreiras sobre esses viadutos para segurança de quem os atravessa a pé.

É pena que ali em Gémeos, no viaduto que cruza as A7 e A11 que ligam Guimarães ao interior do país, tal não aconteça.

Quando lá passo vejo tantas coisas ruins a cruzarem o pensamento!

 

As memórias políticas deviam existir

Foto: Miguel A. Lopes/Lusa

Estará ainda na memória o quanto foi importante, no período da Troika e do governo do Partido Social Democrata (PSD) e do CDS-Partido Popular, desconstruir uma narrativa neoliberal que deturpava dados da economia e atribuía culpas a supostos comportamentos dos indivíduos (o «gastar acima das suas possibilidades») e do Estado (o «enorme endividamento público»).

Sandra Monteiro, in le Monde diplomatique, agosto 2018