Fim da loucura

foto: freepass

 

Não estou preocupado com a humanidade, mas sim com o planeta: um de nós tem de desaparecer e, infelizmente, como não somos civilizados, como somos tão gananciosos, é melhor se formos nós a desaparecer e o planeta a ficar.

Aki Kaurismäki, Ípsilon, 17.10.26

 

Ouço 1755 – o novíssimo e poderosíssimo álbum dos Moonspell – e recordo Antropocenas *, há duas semanas estreado em Guimarães. Aliás, e sendo mais justo, estou lendo a publicação (de 800 exemplares) que acompanhou o espetáculo (muito bom) e saltei para Monspell e 1755 e, eis que entra nos meus ouvidos: não, não ficará pedra sobre pedra.

Caramba!

Fico apreensivo, mas não desiludido e olho – sim porque a memória tem olhares – para a Rita Natário:

– Eu sou uma pessoa doente.

– Sofres de quê?

– Alterações climáticas

Ui! O Fernando Ribeiro diz-me ao ouvido: em nome do medo, caímos, enfim!

Ó pa! Eu não queria o tormento por aí, do mundo sem fim!

Sou sangue do teu sangue, luz que se expande.

Quem disse que a música e o teatro não são enormes amigos do pensamento?

Esperamos nos lugares onde se mata e esfola para destituir certos lugares da natureza ou vamos com Rita Natário e João dos Santos (e os atores que os acompanham) e os Moonspell de bandeira levantada dançando entre plantas, pedras, gatos, dildos e relva nas axilas por entre uma cidade perdida e sete mares do sol, evitar que aconteça não restará ninguém sobre a terra. Não? Vamos mesmo continuar a ser escravos, retomar a terra.

Merda! Não somos amigos do pensamento? E, principalmente, os últimos exemplares vivos?

 

* Teve estreia em Guimarães, ali na black box da Plataforma das Artes e Criatividade, mas a imprensa nacional só falou dos espetáculos em Lisboa; curiosamente numa peça assinada por uma jornalista que (era suposto) ser amiga de Guimarães e que integra o semanário Expresso.

 

 

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Prática transformadora

Ler é estar atento, é estar presente. Viver também é estar atento e presente.

José Luís Peixoto, Noticias Magazine, 17.09.03

 

Já tive a oportunidade de noutros momentos vincar por aqui os olhares atentos e perspicazes da vereadora responsável pela Educação na câmara de Guimarães, daí que ler esta sua afirmação – não vale a pena pensarmos em questões de mobilidade, de reciclagem, de estruturas sociais e educativas se não tivermos uma comunidade com um nível de educação que lhe permita aferir e beneficiar de todas as mais-valias – não me surpreende rigorosamente nada. Pelo contrário! Confirma o que penso sobre a forma como Adelina Pinto olha para a Educação: como ferramenta primordial no crescimento pessoal e social.

Desde logo, e como muito bem vincou na sessão de abertura da apresentação do Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolas do Ave, da responsabilidade da Comunidade Intermunicipal do Vale do Ave,

não há desenvolvimento de nenhum território se não houver uma forte aposta na educação.

Completamente de acordo!

Ou seja, numa região como a do Ave – um território muito rico – é fundamental continuar a aposta (já encetada) na mudança do rumo das coisas no que à Educação diz respeito. Até porque, como muito bem vincou a vereadora da Educação vimaranense, é preocupante a baixa escolarização da população adulta deste pedaço do território português.

Desde logo, com um trabalho de parceria e de mãos com todas as realidades que cruzam esta terra de referência em Portugal. Felizmente que – e Adelina Pinto vincou-o bem – é uma preocupação que une bastante os autarcas.

 

Politica no paraíso

Foto: Rui Gaudêncio (Público)

O debate no espaço público é fulcral.

António Pinto Ribeiro, Visão, 17.09.07

 

Se o partido vencer, ganham todos. Se perder, o líder não cai. A um mês das eleições… é assim que começa a peça jornalística de Helena Teixeira da Silva, no Jornal de Noticias do passado sábado.

É um trabalho interessante sobre a realidade dos candidatos às eleições que mais motivam as pessoas em Portugal.

 

Desse trabalho destaco o lado direito da página 5 – o trabalho começa na página 4 – o olhar atento sobre o distrito de Braga: Vêm do PS sete dos oito candidatos independentes.

Claro que olhei para as palavras do senhor Barreto, mas sobre elas falarei depois; no dia 2 de outubro.

 

Ah! O inicio da reportagem deveria ser a realidade em todos os partidos; aqui à porta ou num outro lado qualquer.

 

Espaços de permanência?

A coisa melhor da noite era que não existia o dia, a coisa pior do dia era que só existia a noite.

Alexandra Lucas Coelho, in ao deus dará

 

Ainda, e mais uma vez – com toda a naturalidade da constatação – vale a pena olhar para comparações a fazer (com maior incidência; tipo cartazes eleitorais nas fronteiras de outros territórios com mensagens ocas, balofas e feitas confetes de confraria em festa de aldeia) nas próximas horas: à partida, passar o mês de agosto em Braga é uma ideia deprimente. Não há um parque para passear, não há local para andar uns quilómetros de bicicleta sossegado, a única praia fluvial decente vai estar sempre cheia. (Luís Tarroso Gomes, revista Rua, agosto 2017)

E se Luís Tarroso Gomes não fosse um cidadão da cidade dos arcebispos?

 

Mas também Rui Marado Moreira, revista Rua, agosto 2017, não deixa grandes possibilidades de comparações entre realidades vizinhas: sem rodeios, a melhor coisa que se pode fazer em Braga durante o verão é ir a Esposende. Ou a Caminha, para quem estiver disposto a andar mais um pouco.

Ainda bem que, quer Luís Tarros Gomes quer Rui Marado Moreira são cidadãos atentos às realidades de um certo modo de fazer saloio e vestido de luzes muito brilhantes.

 

Sabe sempre bem estar deste lado admirando quem, de dentro, desmonta as vaidades e ilusões atiradas aos olhares dos cidadãos.

Eu só quero a minha mãe

Há claramente mais smartphones do que empregos estáveis para os pagar.

Joana Bernardo, E, 17.07.07

 

palavras que ficam suspensas; o gelo da noite. a rua

                               por onde passou tanto do teu encantamento

de pecado em pecado numa cidade aborrecida

hoje falas de quê?

difícil é sentir; ensinar a morrer

falas de quê, hoje?

olhei, mais uma vez

os dias; sempre engolidos pelas horas infinitas de ausências fortes

não dizes de que falas?

estou somente a pensar, nem voz alta, nestas palavras de Nicolau Santos – Expresso (Economia), 17.08.26 – estamos a fazer tudo para chegar a essa terra de leite e mel. Mas o jornalismo, tal como o conhecemos, está a acabar. E isso não é uma boa notícia para a democracia.

E nestas de Inês Cardoso, Jornal de Noticias, 17.08.25: a comunicação social não deveria ser encarada como uma qualquer linha de enchidos. Uma gestão que não olhe para a especificidade da informação, esvaziando as redações de recursos e consequentemente de condições para um trabalho de qualidade, induz um círculo cada vez mais difícil de inverter. Mas, não sendo um negócio qualquer, não deixam de ser empresas obrigadas à sustentabilidade. Sem independência financeira, não há independência editorial. Qualquer debate realista sobre a crise dos media tem de olhar para este pressuposto.

 

ah! falas do futuro do jornalismo

                               palavras que ficam suspensas; o gelo

da noite que nos impõem.

 

Repetição e diferença

Astrofísica é íman de maluco mesmo.

Alexandra Lucas Coelho, in ao deus dará

Não, não creio que seja um método de estar na vida ou na política.

Foi a resposta de Hugo Soares à pergunta: o ultimato é para si um método de trabalho?

Ah! A pergunta é de Filipe Santos Costa e está na página 12 do semanário Expresso (17.08.26) que entrou a matar na sua entrevista: dou-lhe um minuto para dizer uma frase que dê um grande título para esta entrevista.

Não deu, o título escolhido foi outro.

 

Futuro perigoso

imagem: correiodobrasil.com.br

Desde tempos imemoriais que os lideres espirituais e religiosos, bem como os lideres políticos e, atualmente, os santos mercados, se encarregam de zelar, respetivamente, pela nossa paz de alma e pela satisfação das nossas necessidades materiais.

António Rocha e Costa, Mais Guimarães O Jornal, 17.03.28

 

Há na edição de agosto do jornal le Monde diplomatique um texto de Sandra Monteiro que merece reflexão. Uma reflexão que nos deve levar muito para além da apatia com que (não) olhamos para as realidades más dos dias que nos vão precipitando num buraco muito negro.

Começando por uma afirmação que é bem evidente nos dias que correm – “os media estão a passar há muito tempo por uma crise de receitas e de modelo de negócios, por uma crise de identidade e de modelo jornalístico” – Sandra Monteiro toca na ferida do jornalismo que por aí vai correndo ao sabor da nossa indiferença. Vinco das suas palavras: os meios de comunicação social “viraram-se para o tempo imediato, para o quanto mais curto e mais rápido melhor, para o quanto mais entretinimento e exploração das emoções melhor”.

Pois é verdade, mas já estamos tão cegos que nem damos conta, não é?

Mesmo que, como muito bem é sublinhado – “recentemente alguns media regressaram ao elogio da função essencial que o jornalismo exerce nas democracias, mas fizeram-no mais para justificar a necessidade de os conteúdos informativos serem pagos pelos cidadãos.

 

Nota de rodapé – hoje a imprensa portuguesa trouxe-nos, infelizmente!, uma amostra do que aí vem.