Já não posso contemplar o teu rosto

Também o tempo dos monoteísmos acabará por passar.

Michel Onffray, Ípsilon, 17.05.12

1. Leio no Jornal de Noticias do dia 6 de novembro que “alunos de Felgueiras” foram “coagidos a assistir a aulas de religião”. A história – espero que seja, apenas, mais uma estória – terá acontecido no Centro Escolar de Torrados, em território de Felgueiras.

Parece – nestas coisas (a)parecem sempre tantas coisas! – que alguns alunos terão assumido “no ato de matrícula” que aceitavam escolher “a frequência da disciplina” de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). Disciplina?

Se assim foi os alunos – porque assinaram (ou alguém assinou por eles) deviam participar nestas “aulas” – aulas? – de educação moral e religiosa? Oh! Balhe-nos deus!

2. Agora se os alunos que, por qualquer motivo, não participam nestas “aulas” sofrerem consequências não lembra ao diabo! Desde logo, “a comunicação das faltas”, com consequência que podem provocar aos alunos “o risco de lhe ser barrado o acesso aos vários serviços da igreja, como por exemplo a frequência da catequese, batizados, primeira comunhão e outras celebrações”! ó mãe!

3. Se calhar, ainda bem! Até porque o pior inimigo de uma instituição é aquele que por lá anda (ou andou) contrariado.

Ah! Diz um tal Arménio Rodrigues – seguramente um senhor altamente respeitável e digníssimo guardião de valores morais de tempos agressivos que lhe tiram o sono; somente quando o comanda da televisão está desligado – que quem assim não proceder, seja aluno ou pai de aluno, não pode entrar em qualquer igreja católica portuguesa!

Ó meu deus!

4. Então a igreja não é única e universal? – que quererá dizer católico?

Então a igreja católica portuguesa não tem regras que emanam das normas da igreja católica universal?

Então a igreja católica não é uma igreja atenta aos dias que correm e às dores que percorrem as pessoas?

5. Por favor, senhores ‘donos’ de igrejas que proliferam por aí tipo cogumelos (e alguns são venenosos!), feitos donos da verdade e de todas as coisas lindas (vocês não sabem o que é a beleza) que fazem a felicidade dos portugueses que agarram o futuro de costas voltadas para a vossa vaidade mesquinha, acordem!

Não se arvorem em novos cruzados de uma realidade religiosa inventada pelos vossos exageros manipuladores.

Deixem-se de merdas e façam o vosso trabalho na escola – saberão vossas reles mercês o que é a Escola?

Ah! E, por favor, deixem de ser fascistas e reacionários e sigam Francisco, o vosso líder.

Não seguem? Pois é, vocês não são católicos.

Celebrar o ocaso e o outono

foto: cheia no Campo da Feira, 08.08.26

O jornalista [Joaquim] Novais Teixeira arranjou-me uns biscates para o Estado de S. Paulo. Há uma história engraçada com ele. [Ele disse] este é o José Rentes de Carvalho, escritor.

Rentes de Carvalho, E, 16.04.23

 

1. Falando das realidades – mais ou menos parvas e despidas de conteúdo – que atravessam os dias da minha terra – ah!, nunca serei pirata no mar agitado dos salteadores de tesouros cá do burgo – direi em jeito de introito, que sou um daqueles que nada têm para oferecer aos fantasmas citadinos. Não; não direi jamais “que se lixe a sociedade, os políticos e os líderes”; isso era ficar à espera do abismo!

2. Olhando para a minha terra, o que poderei libertar da minha vontade de dizer, será (mesmo) prender um olhar vadio sobre a fragilidade dos líderes. Políticos, partidários, sociais e (ditos) de elite…

Sim, não há líderes de elite em Guimarães nos dias que atravessam a nossa desilusão. Não; não há! Isso já foi! Há tempos. Recordo; pela proximidade em que vivemos: José Augusto Silva – fomos amigos e vizinhos – e Emídio Guerreiro; jogamos umas vezes às cartas lá em cima no lar que tem o seu nome. Com outro senhor que Guimarães teima em reconhecer: Armando Fernandes.

E lideres sociais? Outro Fernandes; o Joaquim. Irmão do Armando. Dois Fernandes de bitola larga. Este Joaquim de obra publicada: em fotografia; uma Guimarães feita imagem do passado. Ou outro Fernandes, Fernando no primeiro nome. Homem da música ou das artes e ofícios. Também com obra publicada, um senhor na alfaiataria vimaranense.

Paro por aqui; hoje e agora. Porque o passado de homens bons de Guimarães é extraordinariamente marcante. E o presente é tão diferente!

Mas o correr da pena (agora isso já não se diz assim, pois não?) traz-me tantas memórias dos Homens de Guimarães.

3. Resta olhar para os políticos de Guimarães.

E que tal terminar por aqui?

É que a (minha) memória já não é capaz de sorver (um) tempo; mesmo que mais recente que se perde no tempo, mesmo sendo até uma memória que tudo faz para trazer aos dias tão parvos que nos vão desfazendo realidades lindas de antanho.

4. É claro que este é um texto incompleto. Muito mesmo! Por isso, antes de terminar, importa vincar um outro nome. Também Joaquim. Santos Simões. Uma grande marca liderante em Guimarães. E é; é mesmo uma marca liderante! As suas marcas cruzaram a cultura, o associativismo e a política, uma coisa que se perde em terras de D. Afonso, não perde? Ou é mesmo erro meu e as associações já acordaram para o futuro?

Curvas da existência

Como todos os impérios que terminaram, estamos em processo de ruina.
Michael Moore, E, 16.06.18

 

Os dias estão violentos; cada vez mais perigosos.

Tens toda a razão. E sabes que nos conduzem a toda a pressa para o fim?

Concordo inteiramente contigo. Olha para estas palavras de Clara Ferreira Alves (E, 18.09.22): Só a gente que vive em íntimo contato com a violência da água, da terra, do fogo e do ar, muita desta gente tribal e rural, ocupada com a realeza do trabalho manual e afastada da sociedade digital, escuta o silêncio e a ameaça que acontecerá.

Subscrevo por completo, sabes?

Também eu, por isso as vinquei.

Mas, sabes?, o mundo está mesmo numa total ebulição. Repara nesta afirmação: Donald Trump vive nesse mundo da fantasia onde só as suas emoções contam, e, portanto, só a sua realidade é real. Mas também diz aos outros: a vossa realidade não é a real. (Stephen Colbert, E, 18.09.29)

 O senhor Stephen tem toda a razão, não tem?

Se tem!

Pronto, meu caro! Valter Vinagre (Ípsilon, 18.09.28) é que tem razão: nas sociedades desenvolvidas, enquanto valorizamos o bem-estar vamos perdendo uma certa religiosidade. Alguns destas manifestações podem estar associados à procura de uma nova espiritualidade.

Divisões divinas

Não vos acontece ficar à espera do dia mais longo do ano e depois deixá-lo fugir sem dar por ele?

Scott Fitzgerald, in O grande Gatsby

 

No fim do teu olhar; nós. Bastou um instante. Sereno. E um momento de paragem. Olhamos.

E sentimos o aliado intenso que foi o nosso passado. Frio, logo nos primeiros passos, morno enquanto sonhávamos a tempestade noturna. E depois, sabes bem que os futuros são sempre desenhados a mais do que uma voz. Sempre conseguimos partilhar a crença de que a ironia do futuro foi sempre um desejo sem passado!

Lembras-te?

Felizmente tudo agora é diferente; muito melhor. Olha a India

Que tem aquele país distante; tão distante das nossas manias?

Não viste a grande novidade: a homossexualidade deixou de ser crime.

Que exemplo para os conservadores retrógrados católicos de ocasião do tal mundo novo, não é?

Novo mundo?

Desculpa! Esqueci-me da designação certa para um Europa, cada vez mais fascista e conservadora.

Crise escrita na pedra

Uma religião que não pensa, ou que só pensa o já pensado cai no fundamentalismo e na violência.

Bento Domingues, Público, 18.07.30

 

Uma galinha para alugar – e levar à cabeça; à volta de um templo de adoração de inspiração católica – em Esposende custa dez euros.

Três voltas com um galináceo às costas (ou colo; se se passar debaixo do andor) é dinheiro de uma arrozada.

Caramba! Porque será que a igreja católica cultiva tantas crendices?

Qual santo; qual galinha preta!

Oportunismo em forma de cifrão (ou será euro?) de uns tipos que gozam solenemente com gente séria.