Tempo de grandes mudanças

Gravura: Helder Oliveira (Expresso)

O verniz estalou na ‘geringonça’ e não foi bonito de ver.

Luísa Meireles, E, 17.12.01

 

 

Mariana Mortágua – com o tempo certo e a apalavra exata – foi clara: o governo não honrou a sua palavra. O governo, todos sabemos, é o governo do senhor Costa. A palavra – tomara que a palavra fosse respeitada! – está nos acordos, à esquerda, que permitiu (ainda) manter o governo do senhor Costa.

A palavra – como seria de esperar; depois de tudo o que (todos) conhecemos, é uma vacuidade na gestão dos dias para o senhor Costa.

Resultado: a geringonça – parvoíce feita história de um senhor que por aí vai falando de “brigadas de ação rápida” – acabou.

E os dias já o disseram. Pela voz do mais que tudo do senhor Costa e do (dizem que será o próximo primeiro-ministro de um – outro – governo do PS) ministro dos transportes.

 

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Fim da loucura

foto: freepass

 

Não estou preocupado com a humanidade, mas sim com o planeta: um de nós tem de desaparecer e, infelizmente, como não somos civilizados, como somos tão gananciosos, é melhor se formos nós a desaparecer e o planeta a ficar.

Aki Kaurismäki, Ípsilon, 17.10.26

 

Ouço 1755 – o novíssimo e poderosíssimo álbum dos Moonspell – e recordo Antropocenas *, há duas semanas estreado em Guimarães. Aliás, e sendo mais justo, estou lendo a publicação (de 800 exemplares) que acompanhou o espetáculo (muito bom) e saltei para Monspell e 1755 e, eis que entra nos meus ouvidos: não, não ficará pedra sobre pedra.

Caramba!

Fico apreensivo, mas não desiludido e olho – sim porque a memória tem olhares – para a Rita Natário:

– Eu sou uma pessoa doente.

– Sofres de quê?

– Alterações climáticas

Ui! O Fernando Ribeiro diz-me ao ouvido: em nome do medo, caímos, enfim!

Ó pa! Eu não queria o tormento por aí, do mundo sem fim!

Sou sangue do teu sangue, luz que se expande.

Quem disse que a música e o teatro não são enormes amigos do pensamento?

Esperamos nos lugares onde se mata e esfola para destituir certos lugares da natureza ou vamos com Rita Natário e João dos Santos (e os atores que os acompanham) e os Moonspell de bandeira levantada dançando entre plantas, pedras, gatos, dildos e relva nas axilas por entre uma cidade perdida e sete mares do sol, evitar que aconteça não restará ninguém sobre a terra. Não? Vamos mesmo continuar a ser escravos, retomar a terra.

Merda! Não somos amigos do pensamento? E, principalmente, os últimos exemplares vivos?

 

* Teve estreia em Guimarães, ali na black box da Plataforma das Artes e Criatividade, mas a imprensa nacional só falou dos espetáculos em Lisboa; curiosamente numa peça assinada por uma jornalista que (era suposto) ser amiga de Guimarães e que integra o semanário Expresso.

 

 

Somos culpados e matamos futuros

foto: agronegocios.eu

Os grandes senhores consentem sempre, nunca obedecem.

Virgilio Piñera, in O grande Baro e outras histórias

 

Um dia a geração a seguir à minha sabê-lo-á – infelizmente melhor e de forma mais vincada na dor, do que a minha geração (aquela que comanda grande parte dos destinos do meu país) – o que é viver rodeado de eucaliptos.

Ao ritmo a que esta peste-oportunista-para-grandes-interesses-instalados cresce!

 

(o governo do senhor Costa já autorizou a plantação eucaliptal em valores assustadores – um aumento de 57% é obra, senhores!

 

Tudo será um caos no que resta do outrora lindo Portugal. E o pior é que é nesta antigamente jardim, à beira plantado que vivem e viverão as pessoas da geração a seguir à minha.

Palavras ocas; vestidas de opacidade

O futuro também muda o passado.

Alexandra Lucas Coelho, in ao deus dará

 

Alguém se lembra do senhor Mario Vargas Llosa?

Aquele senhor que seria programador da Capital Europeia da Cultural em Guimarães (CEC 2012)?

Não foi, pois não?

Claro! O senhor nem (sempre) usa as palavras certas no sítio certo.

Mas, convencido de que é um herói da palavra (não confundir com vendedor de livros que agências promovem com toda a naturalidade dos números da faturação), o dito senhor vaidoso resolveu falar. Em Barcelona.

Caramba! Um ‘dono’ da palavra escrita falou!

Para dizer coisas sem sentido; vestidas de palavras agressivamente encomendadas. Sensatez é algo que não fica à espera de palavras bacocas; sensatez é a verdade saída dos olhares de quem sente os dias e as suas dores na rua da opressão distante.

Pronto senhor! Ainda bem que Guimarães, em 2010, ignorou o seu desejo vazio de ‘programar’ a CEC!

Estamos tão felizes; mesmo a esta distância.

O mesmo não dirão os senhores catalães, principalmente aqueles que viram a praça Urquinaona ocupada por gente sem ideia de estado e nação; recrutada à pressa para engrossar as manias fascistas do senhor Mariano.

 

Perder é importante

Era impossível fazer pior depois de Mesquita Machado, em particular depois dos desastrosos meses do seu derradeiro mandato. Por isso, tendo ganho as eleições de 2013,

a Coligação Juntos por Braga tinha o caminho aberto para brilhar. Conseguiu desiludir em inúmeras áreas, incluindo naqueles em que podia falhar.

Luís Tarroso Gomes, Rua, setembro 2017

 

Elevado desempenho

foto: Miguel A. Lopes (Lusa)

Vocês veem as coisas como elas são e perguntam-se porquê? Eu sonho com coisas que nunca foram e digo: porque não?

George Bernard Shaw, escritor irlandês

 

Há uma entrevista a Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda conduzida pelos jornalistas Adriano Nobre e Luísa Meireles, que tira todas as pedras do caminho por onde seguirá o Portugal do senhor Costa dentro de pouco tempo. É uma entrevista muito, muito importante onde os dias que aí vêm depois das autárquicas – altura em que o senhor Costa perceberá que perdeu – e, no que concerne ao Orçamento de Estado do próximo ano.

Dessa conversa com os jornalistas do Expresso fico, assim de repente, com duas afirmações de Catarina Martins. A primeira que faço questão de vincar é esta: quando se fala de um Bloco brando, é a saudade que a direita tem do partido de protesto.  Que bom! E essa direita anda por aí feita pavão vaidoso, porra!

Depois duas afirmações que sossegam as minhas noites:

Há esta retórica no PS de que se tivesse a maioria absoluta ia fazer o mesmo. Não significa nada, não vai.

E o PS, e não é de agora, interiorizou o discurso de austeridade europeu. Mesmo quando compreende os resultados económicos positivos e fica contente com eles.

Pronto! Sempre gostei de quem não está com meias palavras e mariquices.

Operação de limpeza

É inevitável pecarmos. Mas nem todos reúnem os atrativos ou os meios para prevaricar com variedade e ardor.

Manuel S. Fonseca, E, 17.09.09

 

Li, como sempre leio, o semanário Expresso do último fim-de-semana.

Li, como sempre faço, com a distância que os dias nos provocam. Mas, lendo com toda esta naturalidade, fui incapaz de não notar e de registar estas palavras de Adelino Costa Matos, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE): há regiões da zona norte onde a taxa de desemprego é baixa e onde os empresários têm dificuldade em recrutar. Há quem queira investir e fazer fábricas, mas não tem trabalhadores para abrir as portas.

E estas: agora lembramo-nos dos milhares de portugueses qualificados e não especializados que saíram do país e que já estão a fazer uma tremenda falta.

Claro!

Os dias continuam, como sempre, indiferentes às nossas vontades e exageros.

Felizmente que um tal de Pedro está quase à porta do cemitério politico. O outro, o Paulo, disse-se por aí, que se ri à fartazana.