Contra o silêncio ou contra o sistema

Todas as lendas evoluem e os ímpetos enchem as ruas do burgo. O paraíso das borrascas desaba. Os selvagens dançam sem fim a festa da noite.

Jean-Arthur Ribaud, in Iluminações

É justo um cidadão, uma cidade, um território que – aprendemos bem cedo –, é um espaço de vivência, participação social e desenvolvimento de cidadania gramar com os sons parvos, agressivos, violentos e feitos donos do espaço de uma celebração, seja ela de que natureza for; em horas de descanso?

Não, não é. Seja em que circunstância for!

A harmonia e o silêncio são fundamentais para o crescimento humano. Ao contrário, do que alguns – felizmente são apenas alguns gordos e parvos convencidos senhores que por aí circulam –, dizem e fazem.

Nos dias que correm fico muito espantado com a arrogância (nunca foi boa conselheira esta senhora!) com que ainda se tocam sinos em horas que deviam ser de descanso na minha cidade.

Ah! E se há alguém que reage junto a quem ´tutela´ esses barulhos metálicos – e a lei do ruído permite isso aos cidadãos, vinque-se – recebe cada resposta! Confirmadoras, aliás, de vontades parvas e agressividades ruidosas.

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Matemos João Franco, o ditador

Há cinco anos que o João Franco está doido.

Raul Brandão, in Memórias (volume I)

IntroitoQuem falou, diga-se já, não foi o rei, foi João Franco; que não esteve à altura do seu papel, não foi D. Carlos, foi o ditador. Em Lisboa, dizia-se com espanto: este homem só levanta carrapatas! Ora caçava no seu terreno, ora no terreno dos republicanos, escrevia Raul Brandão, há um par de anos atrás, nas suas Memórias.

1. Há uma dúvida que me arrepia sempre que olho para um passado recente: como pode uma autarquia democrática como é a autarquia vimaranense tratar (tão) bem uns tipos fascistas?

2. Vamos por partes: há uns anos atrás um grande senhor, de seu nome Emídio Guerreiro (não confundir com o sobrinho-neto, um deputado da nação saído de Guimarães com muita pinta), conseguiu resgatar parte do largo, no centro histórico de Guimarães, das garras de João Franco. António Magalhães dividiu um largo grande e deu-lhe um pequeno recanto. Foi bom, mas pouco; muito pouco!

3. Guimarães, a mesma autarquia que só retirou meia praça ao estupor reacionário do João Franco, tem feito um trabalho notável na divulgação do trabalho literário excelente do senhor Raul Brandão. O que aconteceu nos 150 anos do nascimento do militar escritor que viveu em Nespereira é extraordinariamente bonito e ninguém poderá apagar tal marca histórico-cultural da câmara de Guimarães.

Guimarães, a mesma autarquia que mantém na sua toponímia o “cobarde” João Franco, apoiou a edição (três volumes reunidos) das Memórias de Raul Brandão. Numa parceria com a editora Quetzal – linda, linda de morrer esta edição! – é um dos melhores louvores ao trabalho literário de Raul Brandão.

4. Pronto! Aconselho vivamente a autarquia de Guimarães a olhar com atenção para o que, no princípio do século passado, Raul Brandão escrevia sobre o fascista que, depois de consultar bruxas e olhar de cernelha para o rei D. Carlos, morto num atentado, “ainda se ofereceu para governador civil de Lisboa”.

Ah! Este quadrúpede da política portuguesa foi eleito deputado por Guimarães. Infelizmente para Guimarães!, para quem o tipo que tinha a mania bajuladora de se passear pelos corredores do poder, odiava toda a gente e esquecia as pessoas. A propósito: vale a pena recuar a 31 de janeiro de 1908 – na extraordinária obra de Raul Brandão para ler o que Bernardino Machado dizia – há um ditado em Portugal que explica tudo: ladrões não se encobrem de graça.

Ponto final – Até quando Guimarães vai continuar a endeusar na praça pública o estupor do João Franco? As razões invocadas para tal injustiça (nos dias de hoje) não fazem qualquer sentido: Guimarães e Braga têm muita interação e valias em comum. Os tempos são de solidariedade, não são Domingos Bragança e Ricardo Rio?

Só para rematar: Serviam-se o Franco e outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão, escrevia, em fevereiro de 1908, Raul Brandão.

Destinos de fogo

Comove-me que este país não respeite o trabalho das pessoas, não valorize as pessoas, sejam elas novas ou velhas.

Tó Tripes, E, 18.08.05

 

O filósofo (também ensaísta, jornalista e ativista politico) espanhol Ortega Y Gasset dizia que a cultura é uma necessidade imprescindível de toda uma vida, é uma dimensão construtiva da existência humana, como as mãos são um atributo do homem.

Não podia estar mais de acordo!

O problema é que – mesmo que o diretor artístico do Teatro Circo, Paulo Brandão tenha toda a razão quando diz que a circulação dos livros é, quase sempre, a preocupação maior dos escritores (Rua, setembro 2018) – sendo a leitura um passo enorme para a cultura, a jornalista e escritora Ana Cristina Leonardo é que tem razão: deixemo-nos de panos quentes. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que encontrar uma criatura de Deus a ler um livro no Metro (E, 18.08.25).

E o problema é que não apenas no Metro; há tanta, tanta ausência de leitura em Portugal, que é como quem diz, num país que só olha para números, é lamentável que a cultura seja tão oca.

É impressão minha ou o principal responsável pela Cultura no meu país (anda tão apagado, não anda?) também é escritor?

Pronto, Tó Tripes, para os que cá ficamos não há outro remédio senão viver a vida da melhor maneira.

 

Divisões divinas

Não vos acontece ficar à espera do dia mais longo do ano e depois deixá-lo fugir sem dar por ele?

Scott Fitzgerald, in O grande Gatsby

 

No fim do teu olhar; nós. Bastou um instante. Sereno. E um momento de paragem. Olhamos.

E sentimos o aliado intenso que foi o nosso passado. Frio, logo nos primeiros passos, morno enquanto sonhávamos a tempestade noturna. E depois, sabes bem que os futuros são sempre desenhados a mais do que uma voz. Sempre conseguimos partilhar a crença de que a ironia do futuro foi sempre um desejo sem passado!

Lembras-te?

Felizmente tudo agora é diferente; muito melhor. Olha a India

Que tem aquele país distante; tão distante das nossas manias?

Não viste a grande novidade: a homossexualidade deixou de ser crime.

Que exemplo para os conservadores retrógrados católicos de ocasião do tal mundo novo, não é?

Novo mundo?

Desculpa! Esqueci-me da designação certa para um Europa, cada vez mais fascista e conservadora.

Cultura no mosteiro

O recurso à emoção tornou-se uma das figuras obrigatórias da vida pública.

Anne-Cécile Robert, le Monde diplomatique, janeiro 2016

 

Faltará mesmo uma discussão sobre a ideia de cidade, em Guimarães?

E, existindo essa discussão, ela é feita com quem e em que moldes?

Não aconteceu na última campanha autárquica – não vai assim há tanto tempo, ou vai? – um debate sobre o futuro de Guimarães e, principalmente, sobre a ideia de cidade?

Obviamente que o território vimaranense se perde na sua imensidão; não se (pode) ficar por uma centralidade de fachada.

Sim, é verdade! o ponto alto dessa discussão aconteceu numa televisão regional – que não terá as audiências de outros canais –, mas mantém-se a pergunta: falta mesmo uma discussão sobre a ideia de cidade em Guimarães?

Tantos deles; e a noite

O ar é um perfume gordo.

Raul Brandão, in As ilhas desconhecidas

O Baltimore Museam of Art (BMA),em Baltimore, Maryland, Estados Unidos, por decisão de Christopher Bedford, diretor deste museu de referência no mundo, vai passar a ter na sua coleção mais obras de artistas negros e mulheres, leio no Ípsilon (18.08.10).

Numa peça com a pena de Joana Amaral Cardoso, fico(amos) a saber que há uma ideia forte na ‘provocação’ do diretor do BMA: trocar Warhols pela diversidade.

Esta ideia “arriscada” do escocês que dirige os destinos do BMA faz todo o sentido. Pelo menos no seu pensamento: não acho razoável nem adequado que um museu como o BMA fale para uma cidade que é 4% negra a não ser que reflita os seus habitantes.

Excelente!

Quem disse que os diretores de museu não sabem olhar para além das ‘paredes frias’ dos espaços que dirigem?

E há diretores que não são apenas uns amarelecidos programadores; antes inteligente e oportunos matadores de barreiras. Sejam elas de que dimensão forem!