Uma longa estrada

Uma das razões pelas quais considero a observação dos pássaros um refúgio do resto do mundo é porque não há julgamentos morais.

Jonathan Franzen, in E, 17.10.21

 

Espera lá! Será que li bem?

As crianças das escolas de Guimarães estão a ajudar a construir e a reconstruir as memórias do território” vimaranense?

Escreve o Rui de Lemos (Diário do Minho, 18.06.13) que “em cada canto do concelho” de Guimarães, as crianças “perguntaram aos pais e avós por memórias e objetos que ajudam a enriquecer a história coletiva” do território que albergou Afonso Henriques para depois ficarem perpetuadas nos capitéis das recordações locais.

Ah! Esta coisa linda chama-se Pergunta ao Tempo e é um projeto de investigação, diz o jornalista do DM, que “acaba por estimular um bocadinho o espírito de pesquisa, recolhas e tratamento de informação cultural” de Guimarães.

Há coisas lindas por terras afonsinas, não há? Memórias que se guardam para devires pouco dados à memória. Nem tempo vazio, evasivo e indiferente às origens.

 

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Mais olhares. O riso! Vejo o teu futuro

O fulgor do ouro cegou o século XXI. Olhem para as artes plásticas e vejam a ferocidade com que o dinheiro se arrogou o direito de ser o critério da beleza deste tempo.

Manuel S. Fonseca, E, 17.09.23

 

Leio no jornal Público da passada quarta-feira, dia 6, que “vem aí um grupo de trabalho para reformular o apoio às artes” e fico expetante.

Agarro o texto assinado por dois senhores do mundo jornalístico e cultural em Portugal – Inês Nadais e Sérgio C. Andrade – e atiro-me de cabeça à leitura da peça jornalística. Feliz, pensava eu, por finalmente poder dizer que o senhor ministro da Cultura – um homem de cultura e da Cultura, é importante frisar – quer “o máximo de consensos possível”.

Fiquei ainda mais feliz.

Mas, chegado ao fim do texto só me resta uma certeza: afinal o ministério presidido por Castro Mendes vai criar “um grupo de trabalho e reflexão”, com o intuito de “melhorar” o atual modelo de apoio às artes, tendo em conta “as temáticas e questões fundamentais levantadas pelos agentes culturais”.

Ora bolas! Que tristeza!

É sempre a mesma merda!

Quando se quer fazer de conta criam-se grupos de trabalho que não levantam o cu da secretária.

Como explico o fim do silêncio?

foto: ominho.pt 

Se, de facto, o diretor da companhia é o diretor da companhia, como não acreditar que o médico é o médico e o padre é o padre.

João Pedro Vaz, Público, 18.03.22 (sobre A Arte da Comédia, que esteve em cena no Centro Cultural Vila Flor nos dias 23 e 24 de março passado)


E
sta ‘coisa’ de uma novela para uma televisão portuguesa ser gravada em Guimarães não me seduz; rigorosamente nada. Por várias razões – desde logo e principalmente, pelo ‘trabalho barato’ (para não dizer outra coisa) e de suporte a ‘estrelas’ pagas a peso de ouro.


Mas, e isso pode ser interessante, a possibilidade de os ‘artistas’ locais integrantes de grupo de teatro de amadores poderem sentir de perto (bem junto) a realidade do palco será uma mais-valia. Se for reconhecida, claro!

A mudança não está à vista

 

Não é verdade que investir em cultura se perca em coesão social

Rui Moreira, E, 16.01.22

 

Para o Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA) “a falta de transportes entre os municípios do quadrilátero” continua, por estes dias (mais os de ontem do que os de amanhã), a ser a pedra de toque do crescimento e da harmonia no interior de um quadrilátero pouco exigente e distante dos dias das pessoas.

Calma! Quem o diz – referindo-se muito especificamente às dores do IPCA – é Maria José Fernandes, uma senhora que é perentória: “a mobilidade não é só para o IPCA, mas para toda a população”.

Olhando para os números apresentados pela senhora presidente do IPCA – mais de três mil almas movendo-se entre as cidades de Guimarães, Barcelos e Braga – entre as 08H20 e as 23H00 –“ não faz muito sentido” que seja a instituição privada de ensino a “suportar a despesa” os custos desta mobilidade.

Não estive no pequeno-almoço que os senhores do conselho de administração dos transportes urbanos de Braga realizam mensalmente, mas, ciente de que a mobilidade no velho minho é um problema muito sério e a merecer (mais do que uma reflexão profunda) decisões de fundo, fico com uma dúvida do tamanho das cifras que controlam investimos privados: por que carga de água tem que ser o poder público a pagar ligações assim?

Ah! Se a ideia para minimizar esta realidade passar por uma rede de transportes, até pode ser que a coisa mude de figurino!

Mas fica(-me) uma dúvida importante: saber quem paga; e a vai gerir.

 

Somos tão parvos; nós votantes, não somos? II

Por falar no que o senhor Costa apaga, faz, refaz e volta a desautorizar no que à cultura diz respeito, vale pena olhara para Pedro Lima, nos Baixos do semanário Expresso de hoje: é a cultura importante para o desenvolvimento de um país? É. Assim sendo, o sistema de apoios tem de ser repensado. O Ministério da Cultura na fica bem na fotografia.

Ou para o que o semanário Expresso vinca em editorial: a apreciação, caso a caso, dos subsídios atribuídos a cada uma das instituições que concorreram ao Apoio às Artes não pode ser considerada um exercício honesto (…) porque só no escuro da noite todos podemos ser pardos.

E para o que a jornalista Alexandra Carita escreve na revista E: é preciso assumir que as estruturas artísticas portuguesas não têm como sobreviver sem o apoio estatal e que isso implica, naturalmente uma aposta financeira no sector muito maior do que a atual.

 

Somos tão parvos; nós votantes, não somos?

 

foto: observador.pt

O dono da obra é o primeiro arquiteto.

Siza Vieira, E, 16.03.19

 

1. Um senhor com nome de excelência futebolista importado da América Latina que é secretário de estado no governo do senhor Costa – que assina Miguel como aquele traidor que nos encravou em 1640 – em entrevista ao jornal Público (18.03.25) mata-me. Literalmente.

Vinco as palavras do senhor: um dos objetivos da secretaria de estado e do ministério da Cultura é que o reforço progressivo do financiamento se faça criando instrumentos importantes para suporte da governação.

 

2. A sério? Peço desculpa pela dúvida, mas lendo as palavras de Vª Exª [saber a ‘situação de miséria dos artistas] é penoso e motivo de grande angústia

 

3. Assim sei lá se posso acreditar em Vª Exª quando nos diz que também vive desse lado do setor ao qual também continua a pertencer. Sabe senhor secretário de estado, o mal de Vª Exª é acreditar nos milagres ditados pelo senhor Costa!

Mas o melhor é dar a palavra a quem sabe do que fala: de nada vale repetir que o apoio do Estado às artes é sempre território propício à polémica e ao desentendimento. Vale, isso sim, olhar para os efeitos práticos de tal sistema, Nuno Pacheco, editorial, Público, 18.03.25.

 

4. Um ministro sem capacidade para atuar sozinho foi atropelado por um primeiro-ministro sedento de acalmar as hotes. Lead do texto – Os ziguezagues no Apoio às Artes que Alexandra Carita assina no semanário Expresso de hoje sobre os apoio oficiais às artes.

É a diferença entre 0,2% e 1%, não é?

O futuro está sempre em aberto

Os anjos são fáceis de pacificar, basta transformá-los em instrumentos e eles tocam logo a música da harpa que se lhes pediu. Os seres humanos são mais duros de roer, conseguem duvidar de tudo, até da evidência dos seus próprios olhares.

Salman Rushide, in Versículos Satânicos

 

Gosto; muito mesmo!, da visão de Adelina Pinto sobre Guimarães. E muito concretamente sobre a realidade associativa vimaranense. Olhe-se para estas palavras da vice-presidente da câmara de Guimarães na edição do passado dia 15 de fevereiro do reflexodigital

(O concelho de Guimarães orgulha-se da dinâmica do seu movimento associativo, que enriquece as suas gentes e quem nos visita)

Pronto! Sou de Guimarães. Vivo em Guimarães e gosto de olhar no devir. Um devir que se faz de realidades boas.

 

Por isso, olho com gosto para estas palavras de Adelina Pinto inseridas na edição do passado dia 21 de fevereiro do semanário Mais Guimarãespensar a cultura para Guimarães é pensar como é que se podem desenvolver as pessoas. Desenvolver cultura é aumentar patamares, é crescer.

E, sendo certo que

não há cultura que não comece com a educação, e não há educação que não conduza à cultura,

Guimarães já leva um certo avanço. Daí que vinque estas suas palavras:

temos que pensar a cultura de Guimarães para o mundo.

Já andam por aí os primeiros exemplos. E isso é tão  bom, não é?