Este olhar não é vaidade

foto: facebook da banda

Na música portuguesa acho mesmo que há espaço para os Shaduf (projeto musical sediado no Circulo de Arte e Recreio).

No meio da música mais tradicional, da world music, há muita coisa, mas ainda há muito que ainda não foi explorado. Penso que trazemos uma interpretação diferente.

Catarina Valadas, vocalista da banda Shaduf, Mias Guimarães (revista), dezembro 2018

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A sala foi completamente destruída

Guimarães vê-se como uma das principais cidades do país e, no entanto, não tem um jornal diário. Não tem, sequer, um projeto online digno da mínima atenção. A generalidade da comunicação social que existe é anémica e está nos antípodas da história da imprensa na cidade e daquilo que se exigiria no final da segunda década do século XXI. Não é por culpa dos jornalistas, é mesmo de quem dirige os negócios.

Samuel Silva, reflexodigital, 18.12.06

Olhar com paixão

A memória é um ato criativo e não documental.

Alberto Manguel, E, 18.04.28

 

Ponto prévio – A minha relação com Piairo Pantaleão é uma relação de amizade. E dos amigos é sempre complicado falar; melhor, temos de ser discretos!

Segundo ponto prévio – Augusto Abreu é meu amigo há, pelo menos o meu tempo de passagem pela Rádio Fundação. E que já leva umas dezenas de anos.

Terceiro ponto prévio – Não há, nunca houve, mal em falar de coisas que os nossos amigos fazem. mesmo com discrição.

 

Piairo Pantaleão desenhou e pintou, Augusto Abreu, presidente da direção da Associação Familiar Vimaranense, mostrou os trabalhos de Piairo Pantaleão. E bem! Integrou a mostra nas comemorações dos 110 anos daquela instituição vimaranense com uma história fundamental na luta contra as dores dos vimaranenses.

A exposição vem comigo ver Guimarães (parte II); uma repetição de outras mostras iniciadas na Sociedade Martins Sarmento em 1993, é uma mostra que nos dá um olhar vincado e muito pessoal dos recantos lindos de Guimarães.

Mas, sendo, como sou, altamente suspeito de falar deste artista, vinco o que um excerto do que escrevi no dia 16 de julho de 2007, para a apresentação na Penha, de uma gravura da senhora da Penha oferecida aquela irmandade:

Piairo Pantaleão gosta se atirar aos recantos que conhece e aos que a sua memória inventa todos os dias. É, afinal, a confirmação de que o movimento é uma dimensão decalcada ao tempo e ao espaço, isto é, o movimento de cada momento criativo faz parte da ligação do espaço temporal. Guimarães existe com Pantaleão. Ou melhor, uma faceta de Guimarães ganha vida própria com a sua pintura. E redescobrir (ou mesmo descobrir) o velho burgo vimaranense, é muito mais fácil com a sua ajuda. Porque se trata de uma obra feita com o coração nas mãos; o coração de quem ama Guimarães. Mesmo que o seu olhar seja bairrista.

Catálogo vivo

Pensar é ser um eco do que o cosmos tem para nos dizer. É saber o que somos como tempo passado.

Eduardo Lourenço, E, 17.06.24

foto: Paulo Pimenta (Público)

 

O Tiago Mendes Dias dá-nos, mais uma vez, uma fabulosa peça jornalística. Está na edição do jornal Público de sexta-feira (18.11.30) e mostra a realidade do teatro das Comédias do Minho.

Excelente texto! E o mais importante: o Tiago mostra-nos com toda a naturalidade o que é fazer o que se gosta. E as Comédias do Minho faz-se de pessoas que adoram o que fazem. E como gostam, de teatro, levam-no pelo vale do Lima adiante.

Já conhecia um pouquinho do trabalho desta companhia de teatro, mas se não conhecesse, este texto do Tiago dizia-me o que importa saber. E isto é jornalismo.

 

 

O céu é um céu verdadeiro

René Descartes enganou-se em várias coisas. Acontece aos melhores. Nesta ter-se-á enganado redondamente: “o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo”.

Ana Cristina Leonardo, E, 18.10.27

 

1. Domingos Bragança esteve, no passado dia 20 de outubro, a inaugurar o ciclo expositivo – Novas exposições 20 outubro 2018 a 10 fevereiro 2019 do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). Podia não estar, aliás se bem me lembro é a primeira vez que o presidente de câmara de Guimarães ‘ousa’ estar numa inauguração de índole (marcadamente) cultural em Guimarães, mas esteve. E, para que conste, Domingos Bragança, é o presidente de câmara de Guimarães.

2. Não deixa de ser marcante – mesmo que questionável o conteúdo das suas palavras em ato festivo – que Bragança estivesse naquele sítio; num momento reflexivo tão marcante, a dizer que o governo do senhor Costa se está a borrifar para Guimarães. Cidade que, sendo a terceira cidade portuguesa com CEC, é olhada de soslaio pelos senhores do Terreiro do Paço. O que é grave, mau; muito mau para um governo que diz – diz a sua máquina promotora, na verdade! – olhar com carinho para a cultura que se vai fazendo em Portugal. Uma treta, não é? Quando vemos a senhora Graça Fonseca crucificada na praça pública, não é?

3. Voltando àquela inauguração, dos políticos locais só vi o edil e a vice-presidente Adelina Pinto, na qualidade de presidente de a Oficina Nem mais nenhum ator local da vida politica, com assento na vereação ou na assembleia municipal. O que na verdade, não me surpreende; nem um pouco! É sempre assim, os detratores do que quer que seja escondem sempre a mão, a palavra, o gesto ou o olhar. E não tenho memória de ver quem quer que fosse dos críticos – sempre criticantes das coisas lindas que se fazem em Guimarães ou que acontecem com a regularidade de quem sabe olhar o devir com serenidade – em atos desta natureza!

Em suma, e respeitando que nem todos somos dotados com capacidades para subir aos palcos em encenações de criatividade e criação – leia-se teatro, música, dança ou artes performativas – desconheço se tais atores locais alguma vez sentiram o calor das luzes dos espaços de cultura em Guimarães.

4. O Centro Internacional das Artes José de Guimarães é um espaço lindo; maravilhoso. Gostosamente decorado (temos que ler programado). Com artistas que sabem o que fazem; criadores de classe. Reconhecidos em todo o mundo. E alheios às parvoíces de números, gráficos – de Excel ou vontades doentias – dos liberais sem ideias que se convencem que arte é ter o quadro enorme na sala; junto ao fogão de sala; desconhecendo os seus criadores. São uns tipos liberais que nem sonham que “revelar grupos de trabalho inéditos ou menos conhecidos de artistas centrais do panorama artístico em Portugal, contribuindo assim para dilucidar e ampliar o conhecimento dos respetivos percursos, tem sido umas das estratégias da programação do CIAJG”.

 

Nota de rodapé: Aquela Constelação Cutileiro merece um carinho muito para além de qualquer circunstância. João Cutileiro é tão só “um dos mais singulares artistas portugueses do século XX”. E foi bom ouvi-lo; ainda que à distância.

Ah! Esta semana, no mesmo espaço, um senhor mostra-se em Guimarães. Rui Chafes inaugura a última fase de ciclos de 2018 no CIAJ e mostra o desenho sem fim. Quem faltar não tem perdão. Mesmo que sejam os habituais detratores.

Castigos modernos

Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: modéstia.

Machado de Assis, in O Alienista

 

Graça Fonseca. O nome diz alguma coisa aos portugueses?

Nada disso, meus senhores, esqueçam um certo jornalismo que teima em estampar na cara dos ignorantes e parvos consumidores de notícias feitas à medida e com atroz desejo destruidor.

Graça Fonseca é “apenas” a ministra da cultura do meu país – sim; sei muito bem que está a prazo e foi colocada a prazo pelo senhor Costa – que tem uma ideia sobre o futuro da criação em Portugal. Que olha a Cultura em Portugal como uma realidade que “tem um impacto económico muito significativo em qualquer país”.

Não acreditam? Há uma leitura obrigatória: a entrevista que Joana Beleza na revista E do passado sábado.

Gosto; gostei, na verdade, do que li. Desde logo, “temos de olhar para o orçamento da cultura e não para o orçamento do Ministério da Cultura”.

Assim, gostaríamos todos que fosse a realidade cultural!

Não?

Bolas! Eu gosto; muito.

Nota final: o cruzamento entre economia e cultura é um cruzamento decisivo. Em vários países é trabalhado de forma descomplexada, diz a senhora ministra.

Assumir de posição; uma carta aberta

Foto: Roberto Cifarelli

Vivo com seres humanos que tentam levantar a cabeça e não conseguem, porque lha cortaram.

Pilar Del Rio, E, 17.04.22

 

Caro presidente de câmara, Domingos Bragança, principal responsável pelo financiamento das coisas lindas que acontecem no Centro Cultural Vila Flor,

cara presidente da cooperativa Oficina, Adelina Pinto, rosto politico nas ações culturais que por ali vão acontecendo,

caro João Pedro Vaz, rosto real da programação que acontece e acontecerá nos próximos tempos em Vila Flor,

caro Ivo Martins, programador e ideólogo do Guimarães Jazz,

 

nunca, desde que existe o Centro Cultural Vila Flor, abandonei aquela sala de que tanto gosto no decurso de um espetáculo, mesmo que no palco acontecesse algo com que me não identificasse; o respeito pelo ator, artista, dançarino, músico… é fundamental. E esse respeito para mim é sagrado.

Infelizmente, abandonei na penúltima sexta-feira, a sala de Vila Flor, quando no palco Avishai Cohen e o seu quarteto ainda nem tinham aquecido os instrumentos. Não porque não estivesse a gostar, muito pelo contrário, mas porque continuo a defender que se queremos estar por dentro de um concerto temos que estar com os olhos no palco. Tarefa impossível numa noite de sexta-feira; pelo menos na sexta 16 de novembro!

Porquê?

Porque o palco principal eram a plateia, os telemóveis e as vaidades de uns pategos sem respeito por quem estava ao seu lado, em frente; em suma na sala fabulosa que é o grande auditório.

Só isso.

Saí de Vila Flor revoltado pela total falta de respeito: E principalmente pela total inoperância de quem, na sala, tinha a obrigação de fazer algo para que os estúpidos telemóveis deixassem de estar em permanente atividade. Apesar de um aviso inicial – em português e em inglês – não deixar dúvidas: recolha de imagens ou sons não; é proibido.

 

Por fim, caros senhores Domingos Bragança, Adelina Pinto, João Pedro Vaz e Ivo Martins, se entenderem que os telemóveis numa sala com a qualidade e excelência da do grande auditório de Vila Flor podem continuar é um direito vosso. Mas, não acredito que gostem. Daí que fique o apelo: arrumemos os telemóveis em Vila Flor.

 

Nota de rodapé – Mesmo à minha frente, uns tipos lá da capital, num gozo solene enquanto grunhiam os disparos dos telemóveis falavam em voz alta: nesta sala cabe meia cidade de Guimarães.

Convencidos lisboetas de um raio!, Vila Flor é uma sala de excelência que faz muita raiva ao vosso centralismo.