A casa do pito

foto: Paulo Dumas (reflexo)

Que importância terão as coisas que fizemos neste tempo se não forem significativas para aqueles que partilharam connosco este tempo?

Eliseu Sampaio, editorial Mais Guimarães, 18.12.27

 

Há uma casa comercial na vila termal de Caldas das Taipas que já leva 122 anos de vida. É obra!

Já por lá passaram quatro geração. É tempo a ter em conta!

Mas o curioso é mesmo o nome da casa comercial: a loja do pito. Ele há coisas!

Ah! É uma casa de tecidos que, pegando nas palavras do Paulo Dumas (Reflexo, junho de 2019), já leva ”mais de cem anos de pano para mangas”.

 

Nota de rodapé – O trabalho do Paulo está excelente! Parece que estamos a ver as peças dependuradas na Casa Martinho.

Celebrar o ocaso e o outono

foto: cheia no Campo da Feira, 08.08.26

O jornalista [Joaquim] Novais Teixeira arranjou-me uns biscates para o Estado de S. Paulo. Há uma história engraçada com ele. [Ele disse] este é o José Rentes de Carvalho, escritor.

Rentes de Carvalho, E, 16.04.23

 

1. Falando das realidades – mais ou menos parvas e despidas de conteúdo – que atravessam os dias da minha terra – ah!, nunca serei pirata no mar agitado dos salteadores de tesouros cá do burgo – direi em jeito de introito, que sou um daqueles que nada têm para oferecer aos fantasmas citadinos. Não; não direi jamais “que se lixe a sociedade, os políticos e os líderes”; isso era ficar à espera do abismo!

2. Olhando para a minha terra, o que poderei libertar da minha vontade de dizer, será (mesmo) prender um olhar vadio sobre a fragilidade dos líderes. Políticos, partidários, sociais e (ditos) de elite…

Sim, não há líderes de elite em Guimarães nos dias que atravessam a nossa desilusão. Não; não há! Isso já foi! Há tempos. Recordo; pela proximidade em que vivemos: José Augusto Silva – fomos amigos e vizinhos – e Emídio Guerreiro; jogamos umas vezes às cartas lá em cima no lar que tem o seu nome. Com outro senhor que Guimarães teima em reconhecer: Armando Fernandes.

E lideres sociais? Outro Fernandes; o Joaquim. Irmão do Armando. Dois Fernandes de bitola larga. Este Joaquim de obra publicada: em fotografia; uma Guimarães feita imagem do passado. Ou outro Fernandes, Fernando no primeiro nome. Homem da música ou das artes e ofícios. Também com obra publicada, um senhor na alfaiataria vimaranense.

Paro por aqui; hoje e agora. Porque o passado de homens bons de Guimarães é extraordinariamente marcante. E o presente é tão diferente!

Mas o correr da pena (agora isso já não se diz assim, pois não?) traz-me tantas memórias dos Homens de Guimarães.

3. Resta olhar para os políticos de Guimarães.

E que tal terminar por aqui?

É que a (minha) memória já não é capaz de sorver (um) tempo; mesmo que mais recente que se perde no tempo, mesmo sendo até uma memória que tudo faz para trazer aos dias tão parvos que nos vão desfazendo realidades lindas de antanho.

4. É claro que este é um texto incompleto. Muito mesmo! Por isso, antes de terminar, importa vincar um outro nome. Também Joaquim. Santos Simões. Uma grande marca liderante em Guimarães. E é; é mesmo uma marca liderante! As suas marcas cruzaram a cultura, o associativismo e a política, uma coisa que se perde em terras de D. Afonso, não perde? Ou é mesmo erro meu e as associações já acordaram para o futuro?

Movimento do tempo

Os teatros têm uma responsabilidade de diversidade, de apoiarem e respeitarem a criação artística, e sobretudo de serem um lugar de liberdade para o pensamento divergente.

Paula Garcia, diretora do Teatro Viriato, Expresso, 19.02.02

 

Sempre que posso, faço questão de participar no Guia de Visita que a Casa da Memória organiza uma vez por mês, numa tarde de sábado.

Já assisti a momentos muito, muito lindos. Como o do último sábado, sob a batuta do núcleo de estudantes da licenciatura em teatro da Universidade do Minho (NELTUM), em que os jovens estudantes da UM conduziram as pessoas entre as paredes da Casa da Memória.

E foi excelente.

Fiquei feliz por ver a Patrícia e o Luís conduzindo as pessoas entre provocações. É verdade! A memória também se faz de cheiros (ou odores), sons, coisas que só os dedos identificam.

Que organização no pormenor das coisas!

E, já num outro patamar da casa com memórias em terras afonsinas, a forma como se apelou à memória pelos sentidos e, principalmente, como foram recordadas as memórias das primeiras representações destes alunos de teatro não foi só diferente, foi lindo!

Há sábados que vale a pena sair de casa. E seguir os passos de uma juventude irrequieta, altamente criadora e criativa.

Continuar a viver na aldeia ou em vaidades encenadas? II

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Os artistas têm de trabalhar.
João Pedro Vaz, Teatro da MemóriaA Oficina ano zero – Café Milenário, 19.01.17

 

5. Feitas as considerações laterais ao plano de atividades e orçamento 2019 da cooperativa a Oficina é chegada a hora de olhar para o programa; preconizado.

A calendarização? O habitual. Coisas lindas. A começar pelo GuiDance.

Porra! O GuiDance 2019 – para além do senhor Vítor Pontes (é um senhor, sim senhor!), traz Mão Morta ao palco da dança em terras afonsinas. Ainda na periferia. E verdade!, mas já saiu do jardim; em Vila Flor.

Que coisa linda!

6. A seguir, depois do espanto da dança, surge uma coisa, mais ou menos estranha; fraca e vazia (se for como das outras vezes), o Westway Lab. Este ano, é o ano da ressurreição ou da morte. Aguardemos o que nos reserva a edição de 2019, mas é mesmo o ano da ressurreição ou da morte desta feira de vaidades para uma paroquialidade feita de pequenez, viagens e falta de ideias.

(A esse respeito – e porque a coerência nas palavras e no olhar é fundamental – volto ao texto aventuras em Guimarães (publicado no dia 4 de abril de 2017) e recordo o que escrevi: infelizmente Guimarães – pelo menos por aqui; não agarrou nada. Por isso importa vincar Guimarães vai ter que agarrar seriamente este festival. Ai vai, vai! Nem tudo pode ficar nas residências artísticas que andam ali pelo palco do centro de criação de Candoso.)

Infelizmente, Guimarães – pelo menos por este desejo de realidade não (plenamente) concretizada, não agarrou nada, pois não? Quem será que ainda não entendeu esta realidade? Que é o Westway Lab para além das residências em Candoso? E os vimaranenses; a maioria dos cidadãos do território vimaranense, o que sabem desta mostra?

Ah!, nem tudo é catastrófico: a ideia de redes e da internacionalização da música é boa. E há grupos e cantores vimaranenses que começam a circular com os seus espetáculos por uma Europa sem norte.

7. Ah!, residências artísticas e coproduções são mesmo o futuro. Senhores de a Oficina, sigam em frente, mas não se deixem iludir com longas viagens de programadores que adoram mostrar fotos de aeroportos para exibir imensos quilómetros. Ficar por vaidades, exibições e escolhas, mais ou menos óbvias ou próximas dos programadores, nunca será o caminho do futuro; com ou sem anos zeros. Trinta anos de trabalho sério, profícuo e intenso já o mostraram.

8. Há teatro; como sempre, nos desafios de a Oficina. Com os festivais Gil Vicente. Respeito; por mim. Em frente. Habituei-me a ver coisas lindas por aqui.

9. Num olhar mais apressado sobre as apostas de a Oficina, resta um desabafo; muito pessoal. Na verdade, recorrente: se coisas assim tipo noite branca ou assim, se ficarem pelas promoções de marcas de cerveja, confusão, ruído e exibição carnavalesca, nem tudo é bom no devir vimaranense, pois não?

Continuar a viver na aldeia ou em vaidades encenadas?

Se queremos um país que entre em concorrência internacional, tem de se criar um eixo de conhecimento que passe pela educação e tecnologia. A cultura é que dá articulação e sentido a isto tudo.

Luís Filipe Castro Mendes, E, 17,02.25

 

1. Muitas vezes para entendermos os dias e, principalmente, as suas veredas – tantas e tantas vezes estranhas e complicadas –, temos que beber conhecimentos, informação (também promoção, na verdade) na fonte certa; em princípio, límpida, porque original.

É assim com tudo na vida; principalmente nos dias apressados, vazios e tão encenados em que estamos apaticamente mergulhados. Dias em que tudo nos é apresentado como o lado mais belo de uma realidade que nem sempre conhecemos para continuarmos dormindo ou anestesiados.

2. Feita esta introdução ao jeito de quem, saindo há muito da aldeia, odeia a encenação da vaidade, entremos nos desafios que a Oficina lança aos vimaranenses (e não só) no ano que já anda por aí.

E o melhor sítio para o fazer é (tentar) esmiuçar o plano de atividades e orçamento 2019 desta cooperativa vimaranense detida em grande maioria pela câmara municipal de Guimarães.

3. A Oficina – com uma visão integrada, com programação integrada, isto é, o novo ciclo de direção artística iniciado em 2018, sob a batuta de João Pedro Vaz, é uma (nova) realidade para os vimaranenses. É sempre assim; todos os anos, com especial ênfase quando há mudanças nas equipas diretivas.

Percebe-se então que o tal novo ciclo da cooperativa onde a câmara de Guimarães injeta uma pipa de massa, estenda o colégio de programadores com uma equipa que trabalha em conjunto para estabelecer a programação para as pessoas, num processo de partilha de conceitos e atividades. Boa! É uma filosofia interessante que (também) estabelece um novo modelo operacional, ou seja, um corpo único. Está bem! Ver o CCVF, o CIAJG e a CDMG juntos poderá ser muito atraente. E se a relação com o território acompanhar a explosão da internacionalização poderá ser muito mais aliciante. Os dias por que aí já circulam só nos vão dizendo que o território é uma palavra de uso diário no trabalho d’Oficina e prioridade de ação. Mas há mais dias por vir.

4. Os vimaranenses, na verdade, só alguns vimaranenses, sabem bem; conhecem, na verdade, coisas lindas na dança e no novo circo. O pior é que há vimaranenses afastados das mostras no Milenário que não verão tão nobres e sublimes novidades. Daí que seja urgente abrir todas as portas e não deixar ninguém à porta – mas onde é que já ouvi isto, onde foi? Sendo certo que há uma nova estratégia de Comunicação, os outros vimaranenses, os que não passam pelo café Milenário às oito da noite (que raio de hora!), podem e devem ser informados de que há coisas lindas a acontecer na urbe vimaranense; de forma sistemática. Aqueles senhores que, fora da malha urbana, não sabem o que há de belo em terras de D. Afonso, são vimaranenses, não são?

Se tal acontecer – e todos acreditamos que com uma nova dinâmica nascida do ano zero de uma instituição com três décadas de vida intensa, isso será um facto incontornável – então estaremos todos em condições de afirmar que, finalmente, em 2019, será evidente que, para além da mudança profunda nos materiais gráficos de divulgação, haverá uma comunicação inteligente.