Visão armadilhada

foto: turnupthatvolume

A última vaga reacionária que anda a ver se acerta caneladas na liberdade artística chama-se “apropriação artística”. Para os seus sicários, certos termos só podem ser tratados por artistas quem deles tenha vivência identitária.

Manuel S. Fonseca, E, 17.12.30

 

1. Sexta-feira difícil em Guimarães – a última – para quem, ao fim de uma semana de trabalho, não se quer ficar pelo vazio televiso!

Na escolha pessoal fiquei-me pelo Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) –  ali nas antigas instalações de uma indústria de malhas, na rua padre Augusto Borges de Sá.

Uma opção contestável como todas as opções, evidentemente!

Ou seja, escolhi ouvir uma das bandas portuguesas em crescendo que mais admiro: os Sunflowers; precedidos pelos Elephant Maze.

Insisto: uma opção; como qualquer opção, mas uma opção de que não me arrependi, apesar da má disposição (momentânea, espero!) gástrica do Carlos de Jesus.

 

2. É verdade que gostaria de ter estado (já me disseram que não perdi nada; mas gostava, mesmo assim) no café concerto em Vila Flor. E ouvir Josephine Foster.

3. Sim, também teria muito gosto em passar pela Francisco Agra; e mais concretamente no Círculo de Arte e Recreio para dar uma espreitadela no espetáculo

4. Em suma: não estou nada triste pela opção; estou apenas desiludido por não ser possível – para mim, claro! – estar em outros lados. Mas como não tenho o dom da ubiquidade! Limito-me a lamentar que não possa existir uma certa harmonia de agenda; a começar pelas associações que recebem do mesmo orçamento ou do mesmo bolo que suporta as programações públicas. Pelo menos no que concerne ao tipo de espetáculos; ou melhor, da mesma área. E não adianta acenar com a multiprogramação numa cidade que se quer afirmar como grande metrópole cultural. Porque, se sairmos do miolo urbano, Guimarães é minúsculo e não se pode dar ao luxo de desperdiçar a presença das pessoas nos diferentes espaços.

5. Sim, sei muito bem que, principalmente, depois de 2012 – por mais detratores draconários; parece que devia ter escrito reacionários, mas em frente!, ou liberais qualquer coisa (que é como quem diz: individualistas que usam um umbigo maior do que a moda; mesmo a moda que faz produtos fora de moda, mas construídos noutros espaços onde se vive à custa de impostos municipais baratos ou oferecidos ao desbarato) – numa cidade que é (felizmente) uma espécie de metrópole à escala nortenha, não existe harmonia entre quem produz e promove (também) a Cultura.

6. Só tenho uma dor – e sem nenhuma espécie de cinismo: lamento profundamente que em minha casa não tenha um espaço (por mais pequeno que fosse) onde pudesse pôr uns discos a tocar para a malta! Com apoios público, pois claro!

Claro que sei que só estaria eu em casa, de portas abertas e luzes brancas sobre a rua à espera!

Nota final: que pena, Carlos de Jesus, o concerto não ter mostrado na totalidade o! Acredito que agora só estava a recordar uma noite muita boa no CAAA!

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O poder dos livros *

foto: dinheirovivo.pt

A politica é constituída por homens sem ideias e sem grandeza.

Albert Camus

 

Rui Rio, quando, em 2005, ganhou a liderança câmara municipal do Porto não fez questão de se atirara ao PS, à CDU ou ao BE, como seus adversários políticos; não. Fê-lo aos órgãos de comunicação social, a todos os órgãos de comunicação social. Por, segundo podemos lera na revista E do último sábado, “andarem a denegri-lo desde o primeiro dia”.

 

O PSD tem um líder que não tem medo de dizer ao que vem.

Será que o PS – o do senhor Costa – vai esquecer as origens do senhor Rio; educado no colégio alemão?

 

* Parece que Rui Rio já não se recorda qual o último livro que leu.

Realidade linda

foto: guimaraesturismo.com

 

Todo o gesto criativo está relacionado com o conceito de falta.

John Romão, ator e encenador, E, 17.05.06

 

 

Terminou, com os taipenses Smartini uma das apostas mais inteligentes na programação de Vila Flor no ano que está prestes a terminar: o som de GMR. Foi no primeiro de dezembro, dia da restauração – aquele feriado que os tipos da troika com o beneplácito do governo reacionário de Pedro e Paulo nos haviam roubado.

Para quem, como eu, assistiu a todos – perdão, senhores dos Paraguaii, não estava por cá, mas sei que estiveram em grande! – os espetáculos deste ciclo com bandas de Guimarães, nesta altura só posso dizer: a aposta no que de muito bom se faz em Guimarães no campo musical foi ganha. E que nem sempre o que luz em ribaltas (que só muito poucos conhecem o interrutor) é o melhor.

E Guimarães tem tantas coisas lindas, caramba!

Por mim, e sendo certo de que é, apenas, uma opinião, a de quem acompanhou, mais ou menos de perto, os concertos no café concerto de Guimarães, quero colocar em destaque três bandas e/ou artistas que gostei, gostei mesmo. De todos os concertos vinco: Ana, El Rupe e This Penguin Can Fly.

Sim! Tenho consciência de que é uma opinião.

Mas esta é a minha. E é muito sentida.

Fim da loucura

foto: freepass

 

Não estou preocupado com a humanidade, mas sim com o planeta: um de nós tem de desaparecer e, infelizmente, como não somos civilizados, como somos tão gananciosos, é melhor se formos nós a desaparecer e o planeta a ficar.

Aki Kaurismäki, Ípsilon, 17.10.26

 

Ouço 1755 – o novíssimo e poderosíssimo álbum dos Moonspell – e recordo Antropocenas *, há duas semanas estreado em Guimarães. Aliás, e sendo mais justo, estou lendo a publicação (de 800 exemplares) que acompanhou o espetáculo (muito bom) e saltei para Monspell e 1755 e, eis que entra nos meus ouvidos: não, não ficará pedra sobre pedra.

Caramba!

Fico apreensivo, mas não desiludido e olho – sim porque a memória tem olhares – para a Rita Natário:

– Eu sou uma pessoa doente.

– Sofres de quê?

– Alterações climáticas

Ui! O Fernando Ribeiro diz-me ao ouvido: em nome do medo, caímos, enfim!

Ó pa! Eu não queria o tormento por aí, do mundo sem fim!

Sou sangue do teu sangue, luz que se expande.

Quem disse que a música e o teatro não são enormes amigos do pensamento?

Esperamos nos lugares onde se mata e esfola para destituir certos lugares da natureza ou vamos com Rita Natário e João dos Santos (e os atores que os acompanham) e os Moonspell de bandeira levantada dançando entre plantas, pedras, gatos, dildos e relva nas axilas por entre uma cidade perdida e sete mares do sol, evitar que aconteça não restará ninguém sobre a terra. Não? Vamos mesmo continuar a ser escravos, retomar a terra.

Merda! Não somos amigos do pensamento? E, principalmente, os últimos exemplares vivos?

 

* Teve estreia em Guimarães, ali na black box da Plataforma das Artes e Criatividade, mas a imprensa nacional só falou dos espetáculos em Lisboa; curiosamente numa peça assinada por uma jornalista que (era suposto) ser amiga de Guimarães e que integra o semanário Expresso.

 

 

Não há memória sem esquecimento *

Se voa o mundo como uma enorme barata, o que poderia esperar dos meus semelhantes?

Virgilio Piñera, in O grande Babo e outras histórias

 

Escreve Joaquim Martins Fernandes (Diário do Minho, 17.08.21) que “Braga é a terceira cidade do país no público em espetáculos ao vivo”. E justifica o seu trabalho, ou melhor, a sua afirmação dizendo que “é na área da cultura que Braga se afirma”. E, caramba!, diz o jornalista do Diário do Minho que “só em Lisboa e Porto as sessões de teatro, os concertos e outros espetáculos artísticos cativam mais público que na capital minhota”.

A sério, Joaquim?

E esses números são de onde?

Da Fundação Manuel dos Santos, na base de dados PORDATA?

A sério, Joaquim?

E em que se baseiam esses números da Fundação Manuel dos Santos?

Ah! Só no final da peça jornalística é que descortinamos a verdade:

«trata-se, no entanto, de uma evolução face ao ano de 1999, data em que Braga “não dispunha de nenhuma sala”».

Assim não vale, Joaquim. Quase me convencias que Braga é a terceira cidade portuguesa em espetáculos culturais.

Mesmo que muitas notas oficiais (ou oficiosas) possam servir de suporte a muitos trabalhos jornalísticos.

 

* nem história sem contradição.

 

Prática transformadora

Ler é estar atento, é estar presente. Viver também é estar atento e presente.

José Luís Peixoto, Noticias Magazine, 17.09.03

 

Já tive a oportunidade de noutros momentos vincar por aqui os olhares atentos e perspicazes da vereadora responsável pela Educação na câmara de Guimarães, daí que ler esta sua afirmação – não vale a pena pensarmos em questões de mobilidade, de reciclagem, de estruturas sociais e educativas se não tivermos uma comunidade com um nível de educação que lhe permita aferir e beneficiar de todas as mais-valias – não me surpreende rigorosamente nada. Pelo contrário! Confirma o que penso sobre a forma como Adelina Pinto olha para a Educação: como ferramenta primordial no crescimento pessoal e social.

Desde logo, e como muito bem vincou na sessão de abertura da apresentação do Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolas do Ave, da responsabilidade da Comunidade Intermunicipal do Vale do Ave,

não há desenvolvimento de nenhum território se não houver uma forte aposta na educação.

Completamente de acordo!

Ou seja, numa região como a do Ave – um território muito rico – é fundamental continuar a aposta (já encetada) na mudança do rumo das coisas no que à Educação diz respeito. Até porque, como muito bem vincou a vereadora da Educação vimaranense, é preocupante a baixa escolarização da população adulta deste pedaço do território português.

Desde logo, com um trabalho de parceria e de mãos com todas as realidades que cruzam esta terra de referência em Portugal. Felizmente que – e Adelina Pinto vincou-o bem – é uma preocupação que une bastante os autarcas.

 

Salário do medo; uma terra inesperada

É uma pena que os nossos autarcas não pensem que são de facto as Pequenas Coisas que melhoram a nossa qualidade de vida como, por exemplo, termos uma cidade em que qualquer cidadão com problemas de mobilidade se possa deslocar autonomamente. Ou termos uma rede de transportes no concelho eficiente, que permite, a quem não vive na cidade, poder usufruir da vida social e cultural da cidade. Pequenos exemplos de pequenas coisas. E já que falamos em cultura, e numa cidade que já foi Capital Europeia da Cultura, porque não uma política real de proximidade para o desenvolvimento de novos públicos e uma aposta na educação artística/cultural de novos e adultos? Ah, o que eu não gostava de ver num grande outdoor CULTURA PARA TODOS!

Luísa Alvão, Duas Caras, 17.08.30