Espelho de uma época

Quando és novo, atravessas os filmes de olhos abertos.

Manuel S. Fonseca, E, 17.08.19

Escreve Torcato Ribeiro (reflexodigital, 19.11.29) que o ano de 1992 foi o ano de precipício de uma nova centralidade comercial urbana [em Guimarães] e o início do abandono da capacidade atrativa do comércio local no nosso centro urbano tradicional, a zona intramuros e as suas ruas adjacentes.

Estou completamente de acordo, meu caro Torcato!

Um ano antes da inauguração, as danças nicolinas para as quais escrevi as letras das canções – a pedido do Ricardo Gonçalves –, que cantaram, em antecipação, as dores que se seguiriam e essa preocupação que muito bem vincas.

Gostei bem de escutar os senhores dos Trovadores do Cano.

Nota de rodapé: vem aí coisa igual; com a gravidade de abrir feridas enormes numa paisagem já ferida de tanta falta de impermeabilidade.

Seria tão bom que alguém pudesse colocar novas palavras nos cantores nicolinos contando os novos tempos citadinos.

Há que viver a realidade

A questão não é o que fazemos, é o que somos enquanto fazemos.

Jonathan Littell, E, 19.01.05

Caminhar – na gíria política diz-se circular, não é? – na rua da Liberdade, ali mesmo no centro do tampão da historicidade de uma Guimarães que se quer fabulosa no futuro e um passado que a trouxe até aos dias distantes e sem sabor de hoje, é um hino ao gincanismo. Não se passa, nunca se pode circular pelo passeio.

Pronto!

Isso; perdão!, o passeio é para os automóveis. Que à noite; todas as noites ou nas manhãs sonolentas de sábado e de domingo, são reis absolutos do pequeno torrão a que os peões vão deixando de ter direito; de usufruir.

E então, desde o mercado municipal até à unidade de alojamento local…

E o fabuloso parque de Camões já ali!

Realidades assim impõem dúvidas; tremendas dúvidas na crença de melhores dias. Levam a ousar perguntar se em Guimarães a sinalização vertical está toda mal colocada. Principalmente a relacionada com os estacionamentos.

Caramba!

Estacionamento: um caso de sucesso em Guimarães? não, não pode ser! A não ser que o sucesso se faça de vozes etéreas.

A casa do pito

foto: Paulo Dumas (reflexo)

Que importância terão as coisas que fizemos neste tempo se não forem significativas para aqueles que partilharam connosco este tempo?

Eliseu Sampaio, editorial Mais Guimarães, 18.12.27

 

Há uma casa comercial na vila termal de Caldas das Taipas que já leva 122 anos de vida. É obra!

Já por lá passaram quatro geração. É tempo a ter em conta!

Mas o curioso é mesmo o nome da casa comercial: a loja do pito. Ele há coisas!

Ah! É uma casa de tecidos que, pegando nas palavras do Paulo Dumas (Reflexo, junho de 2019), já leva ”mais de cem anos de pano para mangas”.

 

Nota de rodapé – O trabalho do Paulo está excelente! Parece que estamos a ver as peças dependuradas na Casa Martinho.

Celebrar o ocaso e o outono

foto: cheia no Campo da Feira, 08.08.26

O jornalista [Joaquim] Novais Teixeira arranjou-me uns biscates para o Estado de S. Paulo. Há uma história engraçada com ele. [Ele disse] este é o José Rentes de Carvalho, escritor.

Rentes de Carvalho, E, 16.04.23

 

1. Falando das realidades – mais ou menos parvas e despidas de conteúdo – que atravessam os dias da minha terra – ah!, nunca serei pirata no mar agitado dos salteadores de tesouros cá do burgo – direi em jeito de introito, que sou um daqueles que nada têm para oferecer aos fantasmas citadinos. Não; não direi jamais “que se lixe a sociedade, os políticos e os líderes”; isso era ficar à espera do abismo!

2. Olhando para a minha terra, o que poderei libertar da minha vontade de dizer, será (mesmo) prender um olhar vadio sobre a fragilidade dos líderes. Políticos, partidários, sociais e (ditos) de elite…

Sim, não há líderes de elite em Guimarães nos dias que atravessam a nossa desilusão. Não; não há! Isso já foi! Há tempos. Recordo; pela proximidade em que vivemos: José Augusto Silva – fomos amigos e vizinhos – e Emídio Guerreiro; jogamos umas vezes às cartas lá em cima no lar que tem o seu nome. Com outro senhor que Guimarães teima em reconhecer: Armando Fernandes.

E lideres sociais? Outro Fernandes; o Joaquim. Irmão do Armando. Dois Fernandes de bitola larga. Este Joaquim de obra publicada: em fotografia; uma Guimarães feita imagem do passado. Ou outro Fernandes, Fernando no primeiro nome. Homem da música ou das artes e ofícios. Também com obra publicada, um senhor na alfaiataria vimaranense.

Paro por aqui; hoje e agora. Porque o passado de homens bons de Guimarães é extraordinariamente marcante. E o presente é tão diferente!

Mas o correr da pena (agora isso já não se diz assim, pois não?) traz-me tantas memórias dos Homens de Guimarães.

3. Resta olhar para os políticos de Guimarães.

E que tal terminar por aqui?

É que a (minha) memória já não é capaz de sorver (um) tempo; mesmo que mais recente que se perde no tempo, mesmo sendo até uma memória que tudo faz para trazer aos dias tão parvos que nos vão desfazendo realidades lindas de antanho.

4. É claro que este é um texto incompleto. Muito mesmo! Por isso, antes de terminar, importa vincar um outro nome. Também Joaquim. Santos Simões. Uma grande marca liderante em Guimarães. E é; é mesmo uma marca liderante! As suas marcas cruzaram a cultura, o associativismo e a política, uma coisa que se perde em terras de D. Afonso, não perde? Ou é mesmo erro meu e as associações já acordaram para o futuro?

Movimento do tempo

Os teatros têm uma responsabilidade de diversidade, de apoiarem e respeitarem a criação artística, e sobretudo de serem um lugar de liberdade para o pensamento divergente.

Paula Garcia, diretora do Teatro Viriato, Expresso, 19.02.02

 

Sempre que posso, faço questão de participar no Guia de Visita que a Casa da Memória organiza uma vez por mês, numa tarde de sábado.

Já assisti a momentos muito, muito lindos. Como o do último sábado, sob a batuta do núcleo de estudantes da licenciatura em teatro da Universidade do Minho (NELTUM), em que os jovens estudantes da UM conduziram as pessoas entre as paredes da Casa da Memória.

E foi excelente.

Fiquei feliz por ver a Patrícia e o Luís conduzindo as pessoas entre provocações. É verdade! A memória também se faz de cheiros (ou odores), sons, coisas que só os dedos identificam.

Que organização no pormenor das coisas!

E, já num outro patamar da casa com memórias em terras afonsinas, a forma como se apelou à memória pelos sentidos e, principalmente, como foram recordadas as memórias das primeiras representações destes alunos de teatro não foi só diferente, foi lindo!

Há sábados que vale a pena sair de casa. E seguir os passos de uma juventude irrequieta, altamente criadora e criativa.