visão penetrante

eu estou sossegado; tu

conspiras. que mal!

estou a ler os sermões

do padre antónio vieira

 

o tipo era visionário!

 

algumas coisas não são para ser

se não forem, não são; coisas.

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longe de desiludir

sem a devolução do olhar

o teu corpo

está mais distante; frio – voz incessante e necessitada; irreverente

 

olhar feito de paixão! estarei sempre

ao lado do teu corpo quente; contra

os ditadores dos costumes – sim! sei muito bem

do teu olhar refreador – feito pintor

preso na sua tela branca!

 

há uma obra amaldiçoada; perdida

no museu dos teus desejos?

 

não digas tais coisas!

olhar torrencial

a palavra nua é mais rigorosa; e o tempo

que não estica! – afasta-se o sonho

na hora da criação

perceberás que a razão nunca se enamorou

com a fantasia – sabes

 

há vinho entre a poesia e a nossa mesa!

as nuvens adensam-se; nós em silêncio

o mar?

a palavra nua; fria. húmida

tão rigorosa. e o tempo. ali

na espuma fria do mar. não se vê a razão

 

apenas o vinho; ligando

a poesia; a fantasia e o mar.

 

Por que nos dão dias assim?

O sorriso dos que nos são próximos é sempre perfeito. Vistam eles as cores, os fatos ou os olhares que vestirem. E os que nos são próximos são sempre perfeitos; seres que de tão próximos de nós, só podem ser iguais ao nosso desejo de afirmação. Ou seja, jamais os que nos estão sempre a olhar na porta e não da janela, podem ser nossos adversários, amigos suspeitos ou concorrentes.

                (o sorriso dos que nos são próximos é sempre perfeito)

Que bom seria que o mundo e os dias violentos que não param de nos espalmar fossem assim, sempre olhados na porta!

Que bom seria que a solidariedade – independentemente da cor ou do tom partidareco ou da devoção – fosse a porta que nos coloca no mundo!

Mas o mundo é uma conversa cada vez mais por acabar; uma treta com que fazemos questão de iludir os martirizados espaços violentos a que, teimosamente, chamamos os dias vindouros.

(o sorriso dos que nos são próximos é sempre perfeito)

Não, não podemos afirmar que depois de nós não há mais nada; podemos e devemos mandar à merda os vendedores de ilusões e enganadores de sorrisos rasgadamente hipócritas, estampar na estupidez saloia dos que se vestem da moda babosa das especulações e dos fatos da moda em bolsa; gravatas vistosas e vaidades sempre sublimadas

(Também vão morrer amanhã ainda que o seu mausoléu caminhe já em direção ao céu em pedras pomposas).

O último coveiro que conheci tinha um defeito: esmagava violentamente com a pé a terra mole. Ficava espalmadinha e sem vaidades que dava dó!

(o sorriso dos que nos são próximos é sempre perfeito)

ainda há tempo?

com o sonho sempre presente

intensamente

a agitar-se dentro de mim

fico-me

com o fantasia de sair da sombra

dos pais. a mãe não gosta

de me ver sonhar assim!

diz sempre que as coisas mágicas nos olham

de forma inédita

com mão de ferro. eu acredito

na mãe

continuo eternamente de passagem

e corro

contra o destino; feito correio da morte

e o sonho? continua a crescer

de forma bem robusta

 

olhar da semana

Às vezes, cada vez mais vezes, Brito, a minha aldeia natal, assoma-se violentamente distante; outras, poucas, na verdade!, tão próxima. É nesse ápice que pincho para os tempos de escola. E tempos de escola primária é ter em frente, no nosso querido recreio, o monte maior das redondezas (por aquela altura era, seguramente): o monte de Penedas. Hoje, muito para além de uma memória distante e fria, diga-se, é uma elevação seca e fleumática onde nada há para além de um parque de estacionamento. Privado. Nada mais. Nem altura tem, na verdade! Mas entre uns seis anos de sacola castanha às costas e os dias de hoje tudo é tão diferente. Violentamente desigual e díspar. E Brito, sinceramente, é cada vez mais uma paragem no tempo; distante. E convencida de que civilização é destruição.

Ah! Esta foto é de 21 de janeiro de 2007.

de um lugar estranho

a mesa acabou; está fria

morta – era a minha mesa na varanda

onde todos os silêncios ganhavam formas

deliciosas do desejo, de nós: de cores e devires

suporte total da criação!

 

morreu. cinzenta – a sua cor de nascença

vai, agora para espaços destruídos; destruidores

 

jamais verei a minha mesa; cariando-me

corredores brancos

os do outro lado nunca me desiludiram

sempre foram o alvo

profundo e sincero

da minha palavra

– as pessoas precisam de ser ouvidas; penetrar

na profundidade das ideias

sentindo o rio; do outro lado

onde o medo e o mundo crescem – separados

entre recantos. acerta-se a vaidade

dos convencidos e a palavra derruba regras

 

adoro trabalhar na incerteza – império à parte de nós

mantive a serenidade dos rios correndo

na primavera. fiquei. tudo certinho!

o que vai mudar depois do nosso devir?

artes divinatórias

sabes, meu amor? as palavras nunca

foram tão belas! os dias estão gelados

as artes da jura já ninguém as pratica

e o veio da evolução já não é árvore

da vida; mesmo árvore adorada

 

as palavras belas, meu amor!

são árvores determinadas – as mãos

de deus –, artistas felizes na arte

do assombro; na génio do encontro

sim!, meu amor! as ruas da minha aldeia

estão vestidas de tantas palavras; libertadas

 

palavras e acordes!