homenagem ao pai

de que matéria é feita a tua vontade? seres brancos

o que não és – sonhar em territórios de encantos! –

(música prendendo as tradições ao calor do chocolate)

a música prende os sentidos, é passeio sem fim!

 

já não há olhares que aqueçam o coração, pois não?

e então nesta cidade vertical! amores impossíveis; suspensos

lá por detrás da penha são lendas! e os corpos mortos pairando

silêncios; pelo desfiladeiro da tua vontade!

os rios; grandes são grandes rios – e os homens; sempre

cresceram nas suas margens – deixaram grandes marcas.

dos rios (ou nos rios?). e da evolução

da matéria. herança infinita

chovia naquele fim de tarde. tudo em silêncio. em volta.

aresta certa

 

onde ficam todas as inquietações – de que matéria é a matéria de nós?

 

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persistência da memória

devagar; às pancadas pela mesa

do pecado – palavras fortes!

intensamente presentes e prontas

em preparação para a provocação fria

do inferno invisível; as persistências da memória

(nossas amigas prontas a abrir os portões

do nosso descontentamento)

 

luz boçal. um silêncio ansioso

a percorrer

os dedos finos das nossas palavras

 

mitos inativos?

a verdade – ou serão muitas verdades? – do palco

da guerra. não é verdade mágicas; não! o tempo

passa, não passa?

 

campos verdes; caminhando com o teu corpo – estendido

e inerte. na direção ao início

em que teimamos manter vivos os olhares

intensos. Verdejantes – olhares na ilha!

 

a verdade? pois então! diva fragmentada – míticos

momentos cativados pelo silêncio; criamos então

espaços solenes – eis que ele abre a porta!

a verdade? força do imaginário

que não vai sobreviver. então em tempos de confusão – atrás

da capela branca onde tudo volta a acontecer!

 

frágil sensibilidade

sabes – sei perfeitamente que sabes! – estamos sós.

por mais palavras. sms. menus privados

presenças apressadas

estamos onde estamos, é dos dias em que estamos;

 

percebo – nítida e sofredoramente – o que percebo desde sempre.

fizemos o que fizemos; fizemos o que é belo – coisa simples!

sabes, agora estamos isolados; sabes que por estes dias

– os nossos dias mais cansados – a serenidade já não é

a que outros tempos ditaram, acarinharam

 

sabes! já não sobrevivermos aos dias negros; violentos

vestidos da poluição negra. estamos com o pé ferver!

por entre o travo outonal.; depois o inverno morreu.

e a sensibilidade perene que firmava o equilíbrio necessário

entre a tensão e o risco já não celebra o movimento dos corpos.

o silêncio não esvaziado em garrafas quentes

silêncio estranho! não é? silêncio o nosso silêncio

há por aí pacóvios desfazendo

a beleza da noite!

 

estamos por cá; por aqui. serenos de encontro

à noite – está fria, não está? chuvosa; com tanto vento

ontem, o poder perdeu-se! um dos curiosos – é assim

que se fala dos novatos? – disse: eu sou! o outro

mais antigo também disse: claro! sempre

fui o que me disseram para ser

 

silêncio profundo! e a chuva fazendo a vontade

da ventania

 

o que diz que é porque lhe dizem – é mais profundo

e perene! a vaidade e as raivas dos outros são

a sua meninice; silenciosa e sincera

o olhar certo – amanhã – ninguém

pode apagar a memória!

 

pode? o silêncio é tão estranho!

mesmo numa noite engalanada de chuva

e tanto vento

 

em rota de colisão com o sonho

I

perdemos o sono, afastamo-nos da natureza – ali está

a energia; fonte maior, alimento dos dias – a seguir

há governos amansados!

 

a pobreza só existe em absoluto

em quem a sente; só pode ser contada

por quem a vive; a seguir há governos que tombam!

 

um vampiro, a seguir há governos que adormecem!

perdemos o sono

afastamo-nos da natureza

 

nem a crítica imbecil atinge o sagrado – perdemos o sono;

afastamo-nos

a pobreza existe mesmo!

 

II

 

uma religião – que não admite a crítica! – ficamos

velhos; tão velhos; de repente!

nem sempre é possível sexo no fogo para afastar

corpos vadios; pessoas de olhares cilíndricos; vampíricos

que queimam os governos.

 

 

festas limites do sofrimento

o misterioso desígnio dos homens, sabes bem! é

(somente)

a certeza de que matamos – vingados pelas memórias – olhares e o requiem

(que sempre encenaste

entre as luzes tresmalhadas

de azuis violeta; frias)

intimamente misterioso

do devir suspenso em memórias sofridas

 

no mistério do designo: há sempre a certeza

da culpa nos desastres violentos!

(o meio ambiente já não é o misterioso desígnio

dos homens; é – caramba; outra vez! – a certeza de que matamos)

a porta fechada; outra vez! a utopia.

o frio e o regresso

da cidade branca; onde vive o desígnio dos homens

 

há gelos que nunca derretem. nem na perspicaz primavera!