argumento brutal


tanto lixo e a rua a putrificar. tanta merda

(e o teu corpo)

perdido em deambulações.

 

foge da noite

baixa a saia. ninguém vai encarar a liga encarnada

que teimas em exibir. ninguém olha. o teu corpo gélido

acervado de memórias curtas e pesarosas

sempre evasivas. há demasiado ruído no teu olhar; corre

uma espécie espantada de sangue frio em cada movimento

descontrolado. são danças ténues de suor e dúvida.

 

fecha os olhos. só um instante. perderá o animal

que por aí fazes rolar; ganharás outro corpo

noutra rua. ateada e sem lixo. com menos merda.

 

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Tricotar a noite na cidade fria

A virtude do mago é de Portugal

Guilherme Glória, in V Império é uma realidade no futebol

 

1. vou sentar-me em silêncio. esperando a razão. e o fim da precipitação dos dias. não suporto estes tempos que impõem olhar um quarto com grades ma janela.

juro-te que quero encarar a luz de frente. mas há razões para ficar inquieto. e já não sou um guardião de memórias. tenho medo dos dias e de quem se quer impor á toa. assim deste tipo: Cavaco Silva tinha muita coisa a dizer. Para quem já tinha dito que iria reformar-se politicamente e que nunca criticaria o seu sucessor, deu um autêntico tiro no pé. Helena Pereira, in Baixos (Altos e Baixos), Expresso, 17.09.02.

 

2. no ruído da rua houve um desafio comovente; um regresso que afasta (de vez) a vergonha que não para de me atravessar a alma. tenho algumas noções do que é a vida, mas tenho medo da forma como a janela projeta a noite.

sempre planeio um caminho, mesmo que a subida à montanha se torne muito dolorosa. é uma longa viagem! ora vê: o ideal de uma homossexualidade completamente despolitizada e silenciosa, subtraída à guerra do reconhecimento, é a mais profunda aspiração dos defensores de uma ordem antiga que se disfarça com roupagens modernas. António Guerreiro, Ípsilon, 17.09.01

 

3. paremos por aqui. olhemos mais para a nossa casa. tenho medo. a janela está ao desmazelo de sempre.

a tua morte faz-me pensar na ausência de projetos. de ideias para além da rotina dos nossos dias. foi dolorosa a tua morte! disseram-me que ela ficaria suavizada depois de escutar os sinos da nossa aldeia.

paremos por aqui. olhemos mais para a tua casa. tenho medo. há uma janela florida. a janela está ao desmazelo de sempre. fico-me com estas palavas: O poder instituído interiorizou a vitória como certa e faz apenas cumprir o calendário da peregrinação habitual. Não muda nada, nem nas opções e nem no discurso. À direita o PSD faz uma coligação redutora que condena qualquer crescimento de centro esquerda apesar do discurso inclusivo do seu líder. Maria do Céu Martins Mais Guimarães O Jornal, 17.08.29

e não são os dias que correm? sem luz e com as janelas mortas, de tanta secura?

 

Quadro das origens

Se ele não respeita ninguém, ele é a personificação da arrogância, ninguém o satisfaz.

Kmut Hamsun, in Mistérios

 

 

Dilemas com as pessoas (mesmo o povo mais estranho) da minha geração?

São tantos!

É uma geração parva; porque pensa dominar o mundo e os outros.

É uma geração cega; incapaz de atender e olhar com atenção para os mais novos; cada vez melhores e mais bem preparados e capazes de fazer muito e melhor.

É suicida a minha geração; desconfia de tudo e de todos porque perdeu a confiança em si. Há uns tempinhos; na verdade.

Infelizmente a minha geração está à beira do abismo. E teima em continuar a pensar que domina o que sonhou – há imenso tempo. Está à beira do abismo e continua iludida e convencidamente a berra e a gesticular como se continuasse eternamente a dominar o mundo.

Ah! A minha geração é a que está na política local e nacional, convencida que os outros são empecilhos para as suas vaidades.

Ilusões da realidade

As democracias nacionais são desmanteladas, porque os governos nacionais tornam-se, de facto, cada vez mais dependentes dos imperativos sistémicos de um ambiente global que já não controlam.

Jürgen Habermas, atual, 14.01.11

 

os teus ecos ficaram lá atrás, em cima do muro, desfazendo-se no rio que abriu os montes e trouxe o teu poema até nós; tangidos nas tuas mãos sem amor…

.. a idade tem uma grande vantagem: ensina-nos a ser seletivos.

não tentes outra fuga em frente, está bem? não é justo chamar o passado para aqui, muito menos se as suas recordações vierem enumerar as imensas curiosidades que tu nunca és capaz de escrever.

não? nunca deixes de olhar para além de ti e dos teus frágeis dias. olha sempre para além das tuas vaidades mesquinhas.

ui! vai lá devagar!

devagar? não fico é à espera de tudo seja destruído; as memórias apagadas…

já conheço este teu ímpeto…

ai é! olha só este trecho das palavras do investigador e docente universitário César Madureira, inseridas na edição de agosto do semanário le Monde diplomatique: o emprego e o Estado foram um dos laboratórios da engenharia neoliberal proporcionada pela crise financeira iniciada em 2008.

e daí?

eu esqueço-me que tu não tens memória; só olhas para a rapidez e volatilidade das palavras dos teus líderes de ocasião. olha bem o devir e depois voltamos a falar.

 

nostalgia da luz

o palco – ninguém percebe – fecha

mais cedo; acreditamos

que toda a cena

(se)

passará por lá. já vejo

 

o teu absurdo na lupa

da minha indiferença, sabes? o palco

o teu universo – o teatro estava cheio; na sala principal

o palco – já ninguém percebe

 

queria deixar de pensar em mim; desligar

este exíguo mundo. entrar na

(nova)

realidade: culto desmedido – por baixo

da nossa existência! o palco

 

está fechado. já percebemos. acreditamos

já se vê: todas as cenas passam por lá.

 

O que faz o tempo!

Ladrão: nome vulgar para um indivíduo com sucesso em obter a propriedade dos outros.

Ambrone Bierce, escritor norte-americano

 

Pode não parecer a alguns leitores com orelhas quentes, mas tenho alguns amigos que vão dizendo – nunca me ditaram ao ouvido, como agora está na moda [claro que estou só a pensar em SMS que alguns assessores escrupulosos fazem chegar aos telemóveis de uns quantos jornalistas – que nas eleições; todas as eleições,

 

os candidatos são sempre iguais.

(Há tanta gente a morrer na praia e tantos postulantes que já pegam no barco – que têm ou lhe foi atribuído – para chegar a bom porto, nos remos e, principalmente, nas boias; prontas.)

 

São sempre os vencedores!

(Infelizmente, na praia, nem sempre os corpos são belos e vistosos como nos outdoors pagos a peso de ouro – um peso de ouro pago com compromissos futuros que esvaziam cofres) – para aguentarem os coletes de salvação.)

 

Como é demais evidente,

estou a léguas da realidade-promo-eleitoral-ou-quem-sabe-alguém-que-faz-de-conta-que-o-povo-não-percebe, mas atenção,

(não venham agora os senhores que tudo fazem para controlar vontades politicas com máquinas infernais

 

dizer o que se faz perante um pedaço negro de mural que normalmente são as suas campanhas)

dizer com se faz no silêncio da urna; ali não consta que haja chaves de cemitérios.

 

Um doce veneno

 

Que o corpo diplomático se converta num corpo de palhaços é um acontecimento grave, mas nada que supere a lógica de loucura que carateriza a alta sociedade.

Virgilio Piñera, in O grande Baro e outras histórias

 

Banda do casaco; que memória a ter sempre à mão!

Apetece-me tantas vezes voltar a esta banda maravilhosa que marcou definitiva e intensamente a música feita em Portugal.

Como tantas vezes num destes dias, volto a escutar estes senhores.

Paro o pensamento enquanto ouço a barquinha da lua!

E olho para um jovem cheio de talento de nome Salvador Sobral e repito “não há cu que não dê traque” que a extraordinária mão de uns senhores – Nuno Rodrigues e a Filarmónica Fraude de António Pinho – imortalizaram.

Caramba Salvador!