olhar o tempo perdido *

houve um tempo em que não corríamos; tempo

em que o ladrão se sentava à nossa porta. recuei

à minha infância. é verdade! – entre o pensamento dorido

e o espanto – regressei

à imensa fragilidade humana; passos inseguros

um tempo em que o tempo era nosso. muito nosso!

hoje, o silêncio inaceitável. uma pedra obstruindo

o caminho e o passado. são horas, dizes tu! rasga-se

uma cortina de gelo. teimosa como o tempo curador! não.

já não saras! nada

é milagre verdadeiro – ninguém é melhor do que tu

na preferia do diálogo que nos prende

ao tempo do ladrão à porta.

houve um tempo em que o tempo era nosso. agora

não!  vejo o tempo consumindo o tempo. para lá

da fronteira de nós. esse tempo já não é nosso!

já não somos

já não corremos; não temos o ladrão perpetuamente

à nossa porta. é o tempo que nos leva para além do tempo.

tua ausência em mim? queres mesmo um tempo assim? e depois de nós

o que nos levará ao tempo em que não corríamos?

 

* obrigado josé niza

Anúncios

amanheceres tão rápidos

estado mínimo e os políticos – os teus e os meus amigos – enrugando:

estado omnipresente! mergulho profundo nos monopólios

de uma vida; vamos lá! desenhar asneirinhas com a palavra

(a palavra dançante; voando

entre os sons da noite. o vento; quase

da cor do teu pijama – objeto de beleza invulgar – mais palavras

penetrando o ar lânguido das imagens matinais. chovia!

corremos sala fora. o parque espera-nos)

 

do estado profundo; mergulho no vazio – medicamentos ao preço intenso

da indústria: anemias, orçamentos frios – há um poder grande

à volta do silêncio. o mar e as nossas memórias morrem desfazendo

(a palavra dançante; voando

entre os sons da noite. o vento; quase

da cor do teu pijama – objeto de beleza invulgar – mais palavras

penetrando o ar lânguido das imagens matinais. chovia!

corremos sala fora. o parque espera-nos)

 

sorrisos ao ouvido? parece-me aproximação de antecipação do inevitável

estado mínimo; mergulho profundo. há um poder tão grande à volta

dos silêncios – o mar e as nossas memórias à deriva; prontas a desfazerem-se.

(a palavra dançante; voando

entre os sons da noite. o vento; quase

da cor do teu pijama – objeto de beleza invulgar – mais palavras

penetrando o ar lânguido das imagens matinais. chovia!

corremos sala fora. o parque espera-nos)

 

vi – agora mesmo – tantas janelas de vidros foscos; partidos

realismo social?

vamos, meus queridos!

estamos em portugal – vivemos – dizem; num cantinho

abençoado onde poucos recuperam

de um fracasso.

 

e, depois, vieram uns senhores

que nos apagaram

a memória coletiva; deram ideias ocas

e a morte

(um poder negro e vestido de censuras

em forma de cifrões)

promessa maldita: a real finitude

e a perceção do silêncio num tempo

em constante movimento.

vamos meus queridos

de encontro às promessas malditas!

 

matam-nos, esfolam-nos; sempre

prontos a desfazer a beleza

da alma interrogativa – já lá vai

o tempo de uma geração feliz; e nós

estamos em portugal – abraçando

a caducidade da vontade; própria

vamos até onde?

Somos culpados e matamos futuros II

Prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses dos últimos anos.

Manuel S. Fonseca, E, 17.12.01

 

Adoro a liberdade; a opção individual sobre as ações e atos ou atitudes.

 

Adoro a liberdade que os partidos concedem às pessoas; os seus militantes. Oh! Se adoro!

Adoro a forma como as estruturas de poder adoram a liberdade de cada um, quando se trata do endeusamento ou do culto do chefe.

AH! Adoro a liberdade de pensamento; expressão e olhar. Aqui, lá mais em cima ou ali mais ao lado.

 

Como adoro pensar, olhar e expressar-me livremente deixei de adorar as estruturas e/ou instituições onde o culto do chefe, o endeusamento do líder ou a criação de um deus – com ou sem celebrações, parlamentos ou altares – são

(apenas)

janelas para o tributo.

 

Qualquer semelhança com os dias que correm nos dias processuais dos partidos, seitas ou grupos religiosos, não é mera coincidência; apenas faces de uma mesma moeda.

argumento brutal


tanto lixo e a rua a putrificar. tanta merda

(e o teu corpo)

perdido em deambulações.

 

foge da noite

baixa a saia. ninguém vai encarar a liga encarnada

que teimas em exibir. ninguém olha. o teu corpo gélido

acervado de memórias curtas e pesarosas

sempre evasivas. há demasiado ruído no teu olhar; corre

uma espécie espantada de sangue frio em cada movimento

descontrolado. são danças ténues de suor e dúvida.

 

fecha os olhos. só um instante. perderá o animal

que por aí fazes rolar; ganharás outro corpo

noutra rua. ateada e sem lixo. com menos merda.