banalidades de um olhar

a noite – depois da senhora ivete sangalo ter sossegado

a rua – tem passado por aqui; tão suave

vem aí jimiy hendrix, já percebi!

 

por agora, enquanto penetro no silêncio das palavras

vou escutar o senhor de rastas; a deixar-se

de comédias. a gaivota inspira ilusões

verdadeiras. a noite – no portugal que é uma batalha

perdida – um paraíso tingido pelo território inaugural dos patetas

 

a noite – agora; no seu silêncio isolado – é mar

raivoso; pronto a libertar o riso criador de uma nação

 

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sonhos diurnos

dar tempo ao verde; arrastar as mais belas

paisagens – o tamanho das nossas pegadas é enorme

pesado; tremendo. é casamento

sem filhos

 

perder as férias no meio do ruído?

as mesmas manias de sempre e o caos

de todos os dias? foi tão bom o silêncio. ali

onde conhecemos os caminhos de cor, o som e o silêncio

das ondas; transparentes pelo luar sereno

 

já chega de secura! o verde começa a despertar?

é aqui mesmo que o ave começa a voar. leve; calmo. ainda

sem conotações

para além da limpidez da água

 

destruição de muros de silêncio

ser repórter para contar o que se passa? isso já foi

(e os muros que estão a voltar em grande velocidade e altura!)

 

a senhora que adorava passear por entre os olhares

frios da noite já é avó adormecida.

tão amigos que sempre fomos! e o tempo, avó

voa mais veloz que a memória; a tua e a nossa

– destruiu todos os jornais; avó

já não roubam o teu espaço do lazer; na sala.

 

sabes, avó! não falta muito para desparecermos. esmagados

pela violência – depois do tempo; passando para as mãos

dos historiadores e dos arqueólogos – espantados pelo chamamento

 

dos rostos de uma repórter. com uma pena

na mão – pronta talvez a dizer o que (já) não se passa!

 

o corpo e as artes

os corpos elevam-se, abraçam-se – em perdição

cilíndrica. e o sol nasce mais forte. mais intenso; pronto

a devolver energias perdidas quando

 

os corpos abraçam a perfeição do instante

o silêncio entra em contagem manométrica, construtiva

prontos a calar todas as bulhas e forças perdidas

 

corpos, unidos na perfeição, rumam

ao universo! renascem vigores perdidos

quando os corpos se abraçam nasce a luz

 

perfeita, justa. pirâmide iniciada

na arte eterna

diplomacia silenciosa

há mesmo uma festa permanente

no meu país

(um país que morre num discurso amoroso)

há mesmo uma ociosidade forçada

no meu país

(tanta gente a viver em pânico – contas presas no prego

para agradecer

cunhas; fretes, luvas e entradas

em túneis escuros)

há uma solidão de tortura

que se afunda na ousadia do tempo. plateia

de luxo

(palavras que falam de ti; por ti

portas giratórias

desenhando a aventura de ser)

há dias de mudanças

no meu país?

(frases secas)

 

Sabes meu amor

 

Digo-te que tens usado de violência contra mim, mas não sabes.

Kmut Hamsun, in Fome

 

Quando olho em volta e vejo uma pessoa com o telemóvel na mão ou com os auriculares nos ouvidos só penso: ui! as agulhas da hemodiálise já só funcionam nos ouvidos ou as máquinas de oxigenação do corpo são muito mais sofisticadas?

 

É maldade minha? Jamais poderá ser. Sim! É pergunta pertinente; reflexão de agora: qual é o nosso caminho? – sim, pode ser o que ainda falta, mas falta tanto tino para o, cada vez menor, caminho, não falta?

Nem todos os kiwis usam tecnologia de ponta ou aplicações de ter na mão, mas há muitas produções com uma estrelinha no cimo.

Espera! Essa não percebi!

Pois não; se morasses nos sítios por onde passam vias dedicadas…

O quê?

Deixa. Uma mulher; fria entre homens melancólicos – uma mulher nos corredores da memória e do tempo. Vejo todas as palavras que nasceram dentro do desejo.

Olha, meu amor: a volta da prisão dos nossos dias há muitas identidades e palestras dançantes.

Ui! A sério? – pois – é tempo de castanhas; a terra fria está cada vez mais quente e seca. E o teatro do tempo feito melancolia. Chuvas milagrosas; chegou o frio. Atenção! Há quatro pedras no caminho; visíveis. As outras despertam sonhadores de história – guia perfeito para descobrir o mundo em que tudo circula à velocidade da lama pôs a descoberto podridões.

(mostra-me o tanto que se passou lá por baixo por onde te escondeste de mim?

Nos olhos da árvore vemos os nossos desejos traídos; pelas raízes que teimam em manter o corpo espraiando a melancolia que nos reteve; finalmente! Entram com os pés húmidos no mundo)

Ainda gostas da música dos Beatles?