ai os destroços citadinos

cada novo olhar saído do teu silêncio

apático tem um destinatário

incerto

um caminhar discreto; um corpo

passando de mão em mão. nasci

 

para te amar. ser terra – uma vez mais!

 

a liberdade soa a palavras antes de ti

em cada novo olhar abro o horizonte: estou

velho. jamais deixarei

que me digas como são as novas cidades!

 

cada novo olhar é, já se viu, uma composição

branca e sublime

dos movimentos à janela; chã

e tantas aguarelas na parede!

 

continuamos a ser terra?

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erupção de violência

há uma escola invisível com professores no palco

escola invisível!

seria escola de sonho; escola de pormenores, mas os erros

não desaparecem; nem os erros do passado – erros cíclicos

 

era fraco o palco, dizia o pai – erro grosseiro!

o pai, vivendo o esboço de uma grande

visão

perdeu-se na escada

sem olhares de euforia. nunca cruzou as escadas

da liberdade. onde há uma escola

invisível

um professor com palco. o pai

 

ainda sofre o escândalo da humilhação

por nunca encontrar as escadas da liberdade.

Arma de sedução

É licito olhar uma pessoa de cima para baixo quando te dobras para a olhar.

Papa Francisco, intervenção aos jovens da diocese de Grenoble-Vienne (França), Vaticano, 18.07.17

O que valerá a vida com um pouco mais de paciência?

Uma vida? Pelo menos deve valer um desejo, um caminhar calmo – frio às vezes – sobre as brasas que aceleram o desejo.

Tenho medo da vida. Tenho medo de viver. Assim como este sentir frio e sem sentido que me trouxe até aqui. É apenas a esplanada. é apenas o desejo de afastar o gelo de um falso viver. Mas estou farto. Há, com toda a certeza, um salto em frente! Existe, sem sombra de dúvidas, um olhar perpétuo sobre a indiferença. E eu já não tenho paciência. Absolutamente nenhuma. Nem vontade de a procurar. Os desejos de empalidecer a noite foram-se vou esperar calmamente o desejo. E chega. Não quero mais nada.

Pois é!, caramba, como Luís M. Faria (E, 18.10.05) tem razão quando diz que um regime patriarcal só deixa as coisas irem até certo ponto, e o pudor em falar publicamente de sexo também ajuda a dissuadir as mulheres de contarem as suas histórias.

Ah! Paulo Bragança (E, 18.09.22) parere seguir o teu raciocínio. Queres ver? o ser humano é um animal manhoso. E hoje a comunicação generalizada e o excesso de informação ameaçam todas as nossas defesas.

Sim, parece!, mas distante de mim. E depois sabes? a terra só produz o que o homem semeia, não é? Tretas com sabor a religião.

Não! Realidades que entopem crescimentos fundamentais; urgentes na vacuidade dos dias.

estrada de amor

ontem; o palco era negro. havia lençóis brancos

a tapar memórias

as dores

 

vi-te lá, havia teares

barulhos certos e ritmados – agitação

 a fábrica já é fantasma

a memória não; estava ali, mãe! outra

 

no palco – os teus vindouros

contavam a realidade; tantas memórias

apagadas. vi-te chegar cansada, nem te cruzavas

com o pai – saído com os pés no pedal

para o mesmo destino triturador.

 

não adormeci – os lençóis brancos que tapavam

as memórias; as dores ainda – batiam-me

o meu corpo não aguentou. e o palco vivo

ainda

acordo de ti

anda, meu amor! vem comigo – escutar as águas

correm suavemente; em gotas frescas

pelas paredes húmidas que libertam as palavras

anda comigo, meu amor! escutar as águas à volta

sorrindo – ficaram para sempre os silêncios

crepitantes das paredes húmidas, não foi?

que imensidão sobre nós!

 

anda meu amor! vamos libertar

claustrofobias e medos – tudo no mesmo sítio! – a escutar

águas. em frente

é mar. sim! faz sofrer; os gritos desenham corpos

em pânico

 

a liberdade; não duvides, meu amor!

não me foge. perdão – não nos foge; jamais!