Espelho de uma época

Quando és novo, atravessas os filmes de olhos abertos.

Manuel S. Fonseca, E, 17.08.19

Escreve Torcato Ribeiro (reflexodigital, 19.11.29) que o ano de 1992 foi o ano de precipício de uma nova centralidade comercial urbana [em Guimarães] e o início do abandono da capacidade atrativa do comércio local no nosso centro urbano tradicional, a zona intramuros e as suas ruas adjacentes.

Estou completamente de acordo, meu caro Torcato!

Um ano antes da inauguração, as danças nicolinas para as quais escrevi as letras das canções – a pedido do Ricardo Gonçalves –, que cantaram, em antecipação, as dores que se seguiriam e essa preocupação que muito bem vincas.

Gostei bem de escutar os senhores dos Trovadores do Cano.

Nota de rodapé: vem aí coisa igual; com a gravidade de abrir feridas enormes numa paisagem já ferida de tanta falta de impermeabilidade.

Seria tão bom que alguém pudesse colocar novas palavras nos cantores nicolinos contando os novos tempos citadinos.

Embaraços ao balcão

A democracia portuguesa está sob ataque, sem que ninguém, aparentemente, estar a conseguir defendê-la.

Irene Flusnser Pimentel, Público, 19.11.26

Quando leio que uns senhores insuspeitos dirigentes de partidos de esquerda (claro que suposta e naturalmente – por causa do símbolo a que se agarraram para ser eleitos em autarquias do meu país – estão a exigir saber todos os nomes (senhor Saramago o romance é de longe maior do que esta intriga parva!) dos grevistas que, no início do mês de dezembro, participaram em ações de luta, por exemplo dos assistentes operacionais, só posso ficar em pânico. Não pela tacanhez desta tropa feita  autarca num país cada vez mais desencantado pela estúpida arrogância de uns certos políticos de trazer por casa ou de carregar pela boca.

E, muito mais do que ficar preocupado, mas fico; tremendamente assustado com o devir, dou por mim a lembrar-me – sim, ainda tenho memória desses tempos lúgubres – em que os meus pais (que viajavam no carro do regedor de Brito para voarem na Casa do Povo de Ronfe, nas eleições de 1969) deixaram de poder exercer o ser direito democrático de voto só porque (soube-o muito mais tarde) votarem candidato da oposição…

Sim! já passaram uns anitos sobre a revolução dos cravos no meu país, mas quando vejo autarcas eleitos – exatamente porque houve uma revolução dos cravos – a exigirem a aplicação das “sanções previstas” contra os portugueses que – dizem eles, esses democratas feitos á pressa –  “seriam responsáveis pelo encerramento de escolas” só posso lamentar e, lamentando este baixo teor democrático, afirmar que por atos desta natureza continuarei a ver avançar a extrema-direita no meu país, o pais que teve uma revolução dos cravos. Ó senhores! Porque não vão à meda! Ó senhores porque não saem do sítio onde nunca deviam ter entrado? Foram eleitos? É verdade! Tal e qual como os ditadores que desfizeram vidas, criaram espaços de prisão e morte.

Importa pois, correr urgentemente com estes dirigentes, ditos de esquerda; com capas de autarcas exemplares.

Não?

Pronto!

Há que viver a realidade

A questão não é o que fazemos, é o que somos enquanto fazemos.

Jonathan Littell, E, 19.01.05

Caminhar – na gíria política diz-se circular, não é? – na rua da Liberdade, ali mesmo no centro do tampão da historicidade de uma Guimarães que se quer fabulosa no futuro e um passado que a trouxe até aos dias distantes e sem sabor de hoje, é um hino ao gincanismo. Não se passa, nunca se pode circular pelo passeio.

Pronto!

Isso; perdão!, o passeio é para os automóveis. Que à noite; todas as noites ou nas manhãs sonolentas de sábado e de domingo, são reis absolutos do pequeno torrão a que os peões vão deixando de ter direito; de usufruir.

E então, desde o mercado municipal até à unidade de alojamento local…

E o fabuloso parque de Camões já ali!

Realidades assim impõem dúvidas; tremendas dúvidas na crença de melhores dias. Levam a ousar perguntar se em Guimarães a sinalização vertical está toda mal colocada. Principalmente a relacionada com os estacionamentos.

Caramba!

Estacionamento: um caso de sucesso em Guimarães? não, não pode ser! A não ser que o sucesso se faça de vozes etéreas.

Falta de água

As ideologias acabaram com o pensamento. Tornaram-se no oposto do pensamento.

Angélica Liddell, E, 17.09.24

 

Falta de água?

Para os portugueses?

Nhá!

Ai se Portugal não fosse o segundo país da Europa onde se consome mais água…

Então?!

Está na hora de abrir a porta à seca; vê-la a entrar, a valer, na casa de cada um de nós; com torneiras secas.

Quem sabe não acordaríamos para uma tremenda realidade!

 

Nota final: sim! o calendário fere as minhas palavras, tem chovido bastante. Sim. Choveu muito. Estamos no norte, não é?

E, mais a sul, com o vão as albufeiras?

Que pena! Parece que o enorme projeto do Alqueva não tem trazido a chuva de volta por aquelas bandas. E no interior algarvio?