Matemos João Franco, o ditador

Há cinco anos que o João Franco está doido.

Raul Brandão, in Memórias (volume I)

IntroitoQuem falou, diga-se já, não foi o rei, foi João Franco; que não esteve à altura do seu papel, não foi D. Carlos, foi o ditador. Em Lisboa, dizia-se com espanto: este homem só levanta carrapatas! Ora caçava no seu terreno, ora no terreno dos republicanos, escrevia Raul Brandão, há um par de anos atrás, nas suas Memórias.

1. Há uma dúvida que me arrepia sempre que olho para um passado recente: como pode uma autarquia democrática como é a autarquia vimaranense tratar (tão) bem uns tipos fascistas?

2. Vamos por partes: há uns anos atrás um grande senhor, de seu nome Emídio Guerreiro (não confundir com o sobrinho-neto, um deputado da nação saído de Guimarães com muita pinta), conseguiu resgatar parte do largo, no centro histórico de Guimarães, das garras de João Franco. António Magalhães dividiu um largo grande e deu-lhe um pequeno recanto. Foi bom, mas pouco; muito pouco!

3. Guimarães, a mesma autarquia que só retirou meia praça ao estupor reacionário do João Franco, tem feito um trabalho notável na divulgação do trabalho literário excelente do senhor Raul Brandão. O que aconteceu nos 150 anos do nascimento do militar escritor que viveu em Nespereira é extraordinariamente bonito e ninguém poderá apagar tal marca histórico-cultural da câmara de Guimarães.

Guimarães, a mesma autarquia que mantém na sua toponímia o “cobarde” João Franco, apoiou a edição (três volumes reunidos) das Memórias de Raul Brandão. Numa parceria com a editora Quetzal – linda, linda de morrer esta edição! – é um dos melhores louvores ao trabalho literário de Raul Brandão.

4. Pronto! Aconselho vivamente a autarquia de Guimarães a olhar com atenção para o que, no princípio do século passado, Raul Brandão escrevia sobre o fascista que, depois de consultar bruxas e olhar de cernelha para o rei D. Carlos, morto num atentado, “ainda se ofereceu para governador civil de Lisboa”.

Ah! Este quadrúpede da política portuguesa foi eleito deputado por Guimarães. Infelizmente para Guimarães!, para quem o tipo que tinha a mania bajuladora de se passear pelos corredores do poder, odiava toda a gente e esquecia as pessoas. A propósito: vale a pena recuar a 31 de janeiro de 1908 – na extraordinária obra de Raul Brandão para ler o que Bernardino Machado dizia – há um ditado em Portugal que explica tudo: ladrões não se encobrem de graça.

Ponto final – Até quando Guimarães vai continuar a endeusar na praça pública o estupor do João Franco? As razões invocadas para tal injustiça (nos dias de hoje) não fazem qualquer sentido: Guimarães e Braga têm muita interação e valias em comum. Os tempos são de solidariedade, não são Domingos Bragança e Ricardo Rio?

Só para rematar: Serviam-se o Franco e outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão, escrevia, em fevereiro de 1908, Raul Brandão.