olhar o tempo perdido *

houve um tempo em que não corríamos; tempo

em que o ladrão se sentava à nossa porta. recuei

à minha infância. é verdade! – entre o pensamento dorido

e o espanto – regressei

à imensa fragilidade humana; passos inseguros

um tempo em que o tempo era nosso. muito nosso!

hoje, o silêncio inaceitável. uma pedra obstruindo

o caminho e o passado. são horas, dizes tu! rasga-se

uma cortina de gelo. teimosa como o tempo curador! não.

já não saras! nada

é milagre verdadeiro – ninguém é melhor do que tu

na preferia do diálogo que nos prende

ao tempo do ladrão à porta.

houve um tempo em que o tempo era nosso. agora

não!  vejo o tempo consumindo o tempo. para lá

da fronteira de nós. esse tempo já não é nosso!

já não somos

já não corremos; não temos o ladrão perpetuamente

à nossa porta. é o tempo que nos leva para além do tempo.

tua ausência em mim? queres mesmo um tempo assim? e depois de nós

o que nos levará ao tempo em que não corríamos?

 

* obrigado josé niza