Ocupação do espaço

Pelo menos para mim, há alturas em que o passado pesa insuportavelmente, para não mencionar o presente e o futuro

                (se o houver)

António Lobo Antunes, Visão, 17.03.12

 

Numa sexta-feira que me devia levar para lá de Guimarães, o senhor tempo resolveu dizer-me ao ouvido: ó pá, fica por Guimarães que à beira-mar está frio, nevoeiro e pode chover. Raios partam o senhor tempo!

Mas não se pode perder o norte nem a compostura. E o melhor é dar ‘corda aos sapatos’. Foi o que fiz na última sexta-feira (não foi aos sapatos; foi às sapatilhas) e fiz o que costumo fazer no final do dia, mas de manhã, bem cedo.

São esses olhares de sexta-feira em Guimarães que trago por aqui. Uns e outros são um retrato (em alguns momentos assustador) do que é, afinal, viver em Guimarães.

Calma! Nem tudo é mau!

Vamos lá então começar corrida.

 

Nas hortas, ou Horta Pedagógica, dou de caras com dois funcionários (não percebi se eram da câmara de Guimarães ou de uma empresa privada, mas isso pouco importa) a colocaram dois pinos de madeira ali numa das travessias de madeira que separa os dois lados da Horta. Fiquei contente. É sinal que não terei, doravante, uns motores a matraquearem os meus passos; mesmo de frente.

Pronto! Começava tão bem a minha corrida.

O pior foi entrar no caminho real e ter que parar com medo a dois matulões. Eram cães, ok, mas metiam respeito. O dono olhou para a minha cara de medo e apressou-se a correr para os bicharocos e agarrá-los – disse bem: agarrá-lo porque só tinha trela ou lá que era para um animal.

Todo a tremer lá entrei no miolo do caminho real. Caramba! Tanto lixo; caixotes despejados (seria? ou era mesmo destruição?).

Ah! Ao longo da variante e até ao caminho real era bom que os senhores responsáveis pela manutenção daquele espaço dessem uma vista de olhos à quantidade de paus caídos naquele separador de madeira, confesso desconhecer o nome.

É claro! que depois de uns quilómetros nas pernas e o espírito aliviado esquecei os cães, mas não me sai da ideia o lixo ao longo do caminho que de real já nem o nome preserva.

 

Nota de rodapé: há uma coisa de que tenho pena, só em tempos eleitorais é que se sai do gabinete, e o caminho real, ali em Creixomil, não pode estar quatro anos à espera de ser o que devia ser; depois do seu restauro e recuperação de 2012.