Ficar para criticar

Cantei muito devagar, como um lamento ou uma súplica, com a mão atrás da orelha para guiar a voz.

António Tabucci, in Mulher de Porto Pim

 

1. atravesso a rua deserta. não paro nem por um olhar curioso que me tenta prender. fico; à espera da respiração do movimento do teu corpo

ui!, então?

como antigamente – o cão da morte. jamais morre.

vou fechar a loja. dia de aventura; muita adrenalina.

estás em portugal, sabes? um país que é uma tromba de água; permanente!

ui!, e então?

morte encaixotada só depois de cortados os corpos; corpos encaixotados – alinhados. a estrada vazia. futuro que já não nos interpela: porta fechada.

 

2. sem desculpa; mãe. não deixe o meu jantar arrefecer

não acredites mais em ti! para onde foi a noite?

não sei, mãe! sei apenas que há um paraíso para alguns; um inferno para os outros, quase todos nós.

 

3. Portugal é o país corrupto mais bonito do mundo

Bancos resgatados, nacionalizações que custam 7 mil milhões de euros, bancos vendidos a custo zero, bancos vendidos a 1 euro, projetos de restruturação do setor da economia social em que bancos pobrezinhos são ajudados pela santa casa da misericórdia com 135 milhões de euros, rentismo do setor elétrico e ex-ministros patrocinados. Lá fora não se fala noutra coisa. (o Inimigo Público, 17.06.09).

 

4. sabes, filho? é a ditadura da ganância. vem comigo! vamos atravessar a rua deserta. como antigamente – o cão da morte respira todos os movimentos do teu corpo, mas também os cães são mortais!

 

 

 

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