Espírito criativo

Gosto de ver o palco como extensão do mundo, como o lugar que torna possível os grandes mistérios e contradições humanas.

João Reis, E, 17.04.14

 

1. Vasco Carneiro, concedeu uma entrevista (conduzida pelo seu diretor, Eliseu Sampaio) à revista Mais Guimarães, edição de abril 2017, que é um doce! E não estou a olhar para os primeiros passos do Vasco sobre a arte e a criação, que nos templos católicos vimaranenses – mormente nas esculturas –, procurava a inspiração, “porque não havia mais nada. Nas igrejas tinha a minha coleção de santinhos para desenhar – realidade que registo com o carinho de quem conhece o Vasco desde os tempos que se perdem no Tempo. Olho para o seu olhar sobre as artes plásticas, que “já se estão a perder” porque, vinca, “a energia dos anos 80/90 [do século passado] já não existe”, com a preocupação que sente pela insatisfação – tão criativa.

 

2. Sou incapaz de não registar esta grande preocupação do pintor vimaranense sobre (algumas) realidades locais: “há instituições e associações que tentam promover alguma coisa, como o CAR, nas Dominicas também cedem espaços a alguns pintores. Mas tudo é muito pequeno. Acho também que mesmo as outras artes não estão assim tão apoiadas, mesmo o próprio teatro e a dança”. Ou seja, parece que para o Vasco, se não fosse o associativismo local, em Guimarães não se produzia arte.

Será mesmo?

 

3. Mas, como já o demonstrou mais do que uma vez, o também professor sabe olhar para a realidade dos dias. Daí que valha a pena sublinhar estas suas palavras: “eu acho que isto não tem de ser unicamente com a atitude municipal”. Ou seja, o apoio à criação. E o Vasco é direto no seu argumento: “considero que a câmara não é pai de ninguém. Tem funções sociais, sem dúvida, mas também culturais, mas deve concentrar a sua atividade mais nas funções sociais do que culturais”. Não acredito que possa existir muita gente a não concordar com este ponto de vista do criador vimaranense.

 

4. E quando olha para Guimarães e as suas realidades, mesmo a de um passado recente?, que nos diz o Vasco? Desde logo, que não percebeu “nada do 2012 [Capital Europeia da Cultura]” e que, por isso, anda à procura de entender; de perceber. E o seu argumento não deixa de ser curioso: ”se calhar estava errado, e se calhar todos nós vimaranenses estávamos errados” sobre o que seria (foi) a CEC 2012. Mas deixa uma pista: “não ficou um grande ícone para a cidade, que saísse do Toural. Dantes passava-se tudo no Toural, agora tudo é no centro histórico. A cidade não se abriu”.

E, caramba! jamais poderia passar ao lado este olhar: “a cidade não cresceu, a cidade organizou-se. Uma cidade que cresce é uma cidade que cria bairros, novas artérias, desenvolve o comércio, aumenta o comércio. Isso é crescimento”. Ups, Vasco! Que olhar intenso! Um ponto de vista respeitável, claro!, mas que não sou capaz de aceitar, de forma alguma.

É o pintor vimaranense a deitar um olhar sobre o desenvolvimento. E o que nos diz? “Não se justifica nesta altura não haver uma avenida que ligue Guimarães às Taipas, e se isso não acontecer brevemente, as Taipas vai declarar independência, isso é certinho”.

O Vasco sempre a rasgar horizontes!, mas avenidas assim é obra!

 

5. Registo, por fim, este seu desafio: “Guimarães devia ter um museu do folclore em S. Torcato, que tem uma riqueza etnográfica gigante, em termos de traje, da música”. É uma ideia que já ouvi em tempos, mormente em S. Torcato e que considero fazer sentido.

 

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