O corpo é que paga

casimirosilva

A necessidade de histórias é eterna, sem elas a Humanidade não sobrevive.

Win Wnders, E, 16.12.17

 

1. Quando no dia 6 de julho – dia de dar um beijo de parabéns à minha irmã Ana Maria – de 1990 comprei Silêncio estava longe de imaginar o livro que acabava de adquirir.

Que livro seria este cujo autor tinha um nome tão estranho: Shusaku Endo?

Quando o li, fiquei aterrorizado: os japoneses eram tremenda e violentamente maus, agressivos e assustadores. Mas essa foi uma leitura de quem andava aí pelos trinta anitos!; de alguém que só era capaz de ver palavras sem refletir no que lhes está subjacente.

2. Passaram muitos anos sobre a primeira leitura. Recentemente reli-o e percebi que, noutros tempos, também os portugueses se fizeram ao mundo com ideias para além do comércio e levavam vontades enormes de domínio ou controlo das pessoas. Fosse onde fosse! Tivessem eles as origens profissionais e/ou pedagógicas que tivessem. Desde que o domínio fosse alcançado tudo estava bem; porque era abençoado. Como percebi também como é enorme o silêncio de Deus. Doloroso; violento na ausência.

3. Fico agora com uma dúvida: o senhor Martin Scorsese far-me-á mudar de ideias?

No próximo mês o seu filme estará na programação normal do Cineclube de Guimarães; depois digo. Mas, tenho, desde já, uma certeza: a ideia da “salvação pela dúvida”, que Rui Ramos assina no Observador (17.01.27) parece-me uma leitura só da lombada do lado direito do livro. Ou não, porque na edição de 1990 (do Circulo de Leitores) já se podia ler que o católico Shusaku Endo questionava “não só o problema do cristianismo no Japão” como punha “em causa a sua atualidade e adequação no ocidente moderno”.

4. Ah! Aires Gameiro (Igreja Viva, 17.02.02) fala de uma porta que eu já tinha visto na segunda leitura do livro: “o filme e o livro ajudam a pôr questões, a distinguir entre fé e roupagens culturais, a distinguir entre cristãos e padres coerentes, fingidos e apóstatas”.

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