Todos a bordo

vila-flot

Não percebo porque é que toda a gente que aqui chega parece sentir que pode fazer de mim idiota.

Knut Hamsun, in Mistérios

 

A Mostra de Teatro de Amadores que esteve em cena de 20 a 22 de outubro no Centro Cultural Vila Flor foi a melhor de que tenho memória. Foi, seguramente, e de muito longe, aquela que me deixou mais confortável e sereno, enquanto membro do júri. Pela primeira vez senti que, pelo menos dois dos projetos finalistas, podem estar em cena em muitos dos palcos deste país.

Mas vamos por partes, seguindo o calendário das apresentações.

Quinta-feira, dia 20 – PREC no prato (Astronauta-Associação Cultural).

Vi atores; com genica, com capacidade de movimento em palco, dando vida às cenas. Via ação. Ouvi vozes colocadas, em tempo certo. Enfim! Vi atores a sério. Entrei numa realidade (que conheci mais ou menos de perto, noutros tempos) pela pena de Helena Pereira. Mas, como só há uma pequena diferença entre os boinas verdes de 1976 e a minha passagem pela vida militar, prefiro valorizar o lado sentimental que Helena Pereira nos mostra: as pessoas dos militares. Há cartas que ficam para sempre; fazem história. Sei lá, tipo António Lobo Antunes nas suas cartas que deu o belo filme de Ivo Ferreira “Cartas de Guerra”, filme que chegará à montra dos óscares.

Perdão! Fui embalado no entusiasmo; quase esquecia que António Leite, Francisco Leite Silva, Simão Barros, Francisco Conceição, Tiago Teixeira, Luís Canário Rocha, André Aguiar e Cândido Barbosa vestiram a farda deste PREC no prato. Os saltos da mesa da celebração para a camarata dos recrutas foi excelente. Depois; bom, depois, os atores fizeram o resto: uma grande revolução no teatro amador feito em Guimarães. Não foram só passos firmes sobre um momento social, militar e politicamente forte da história recente de Portugal, foi um enorme momento de vivência teatral em Guimarães.

Sexta-feira, dia 21 – Para o comboio da meia-noite (Citânia-Associação Juvenil).

Um hino à encenação. Extraordinário cenário. Luzes certas no sítio certo. Um palco realista a fazer saltar as lágrimas da memória. Não, não é exagero, vi mesmo uma das melhores encenações das mostras de teatro de amadores em Guimarães. E vi e vivi momentos de rara beleza: dois atores seguros em palco que ‘aguentaram’ outras personagens mais frágeis; tal e qual os momentos que nos foram mostrados. Afinal era mesmo a fragilidade humana que estava ali; numa estação pessoas, tão distantes! Sempre à espera de um comboio tardio, adiado, um comboio que jamais chega para trazer a salvação. Por momentos – e peço desculpa pela emoção – vi o filho de Saul, de László Nemes. E vi a destruição humana e o caos da II Guerra Mundial. E vi retratos tão reais e tão próximos dos dias que esmagam a nossa ilusão de que o mundo é um lugar bom. Podia ser um qualquer país desta Europa que fecha fronteiras. Ah!, tudo isto a partir de um senhor de nome Brecht, Bertolt.

Sábado, dia 22 – Húmus (Teatro de Ensaio Raul Brandão-TERB)

Vi uma das mais difíceis tentativas de transformação de um texto em palco. Não terá sido totalmente feliz. Conheço (razoavelmente) o texto de Raul Brandão; podiam estar em cima do palco tantas outras palavras. É verdade que o texto vale pela viagem interior e pelos sinais vitais que nos dizem que somos tantas vezes uns parvos à deriva. E os sinais não foram claros em palco, muito embora, justiça tem de ser feita, o grande empenho de Elvira Oliveira que levou o piano, o palco todo e os pianistas ao colo. Pena o tom intenso da sua voz! Se não…!

Em suma, estando a escolha feita – que assumo (estou certo que os meus colegas de júri também) não sou capaz de dizer mais do que isto: em Guimarães, o teatro de amadores mostra coisas lindas. Muito lindas!

Depois desta edição fico com uma certeza: mesmo que o júri quase tenha acertado no alinhamento vitorioso, é importante que se conheçam mais pormenores dos concorrentes. Das propostas que se aparentam para destronar hábitos instalados; ideias que já cristalizaram. Este ano os três finalistas não desiludiram. Astronauta e Citânia estiveram quase perfeitos, mas quem sabe se os outros concorrentes que não se mostraram não tinham projetos capazes de celebrar o teatro “que continua bem vivo no concelho de Guimarães”?

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