destruição de muros de silêncio

ser repórter para contar o que se passa? isso já foi

(e os muros que estão a voltar em grande velocidade e altura!)

 

a senhora que adorava passear por entre os olhares

frios da noite já é avó adormecida.

tão amigos que sempre fomos! e o tempo, avó

voa mais veloz que a memória; a tua e a nossa

– destruiu todos os jornais; avó

já não roubam o teu espaço do lazer; na sala.

 

sabes, avó! não falta muito para desparecermos. esmagados

pela violência – depois do tempo; passando para as mãos

dos historiadores e dos arqueólogos – espantados pelo chamamento

 

dos rostos de uma repórter. com uma pena

na mão – pronta talvez a dizer o que (já) não se passa!

 

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O olhar da noite engordou de vez

Ler é como as horas de voo. Só se acumularmos muitas somos capazes de pilotar bem.

António Mega ferreira, in E, 17.03.18

 

Portugal é um país parvo que se farta!

Tão parvo que até dói!

Pelo menos quando comparado com outros países da União Europeia, no que concerne ao “consumo de bens culturais nos últimos 12 meses”.

E se olharmos para os índices de leitura?

Ui! Portugal é um país de analfabetos. Sim! Não há engano nas palavras. Quando só 40% dos portugueses leu “pelo menos um livro” no espaço de um ano, estamos falados!

Ah! É evidente que “ter maior capacidade económica e mais anos de escolaridade determina o acesso das pessoas à cultura”. Mas este dado só confirma o país que somos!

Nota: os dados são do Eurostat.

 

Uma longa estrada

Uma das razões pelas quais considero a observação dos pássaros um refúgio do resto do mundo é porque não há julgamentos morais.

Jonathan Franzen, in E, 17.10.21

 

Espera lá! Será que li bem?

As crianças das escolas de Guimarães estão a ajudar a construir e a reconstruir as memórias do território” vimaranense?

Escreve o Rui de Lemos (Diário do Minho, 18.06.13) que “em cada canto do concelho” de Guimarães, as crianças “perguntaram aos pais e avós por memórias e objetos que ajudam a enriquecer a história coletiva” do território que albergou Afonso Henriques para depois ficarem perpetuadas nos capitéis das recordações locais.

Ah! Esta coisa linda chama-se Pergunta ao Tempo e é um projeto de investigação, diz o jornalista do DM, que “acaba por estimular um bocadinho o espírito de pesquisa, recolhas e tratamento de informação cultural” de Guimarães.

Há coisas lindas por terras afonsinas, não há? Memórias que se guardam para devires pouco dados à memória. Nem tempo vazio, evasivo e indiferente às origens.

 

Que a longa noite termine

Quase todos os países têm aprovado programas de descontração: nós continuamos parados, sem os ganhos de eficiência que podíamos obter.

Diogo Freitas do Amaral, in Público, 18.04.21

 

Numa entrevista conduzida por Alexandra Figueira (Jornal de Noticias, 18.06.10) o atual presidente do Conselho Regional do Norte fala sobre uma realidade que, com o passar do tempo e das indecisões, não para de massacrar os desejos (e, principalmente, as certezas) futuras dos portugueses.

É uma conversa perfeitamente oportuna e para ter (sempre) em cima da mesa das decisões de quem, a norte do rio Mondego (mas, principalmente, a norte do rio Douro) tem que lutar contra as dores de crescimento dos seus territórios. E o Miguel Alves

conhece bem o que é ser presidente de um município tão distante de Lisboa!

É uma entrevista que merece ser lida com toda a atenção. E, mesmo mantida em cima da mesa das decisões, ser guardada para, a muito curto prazo, a dissecar junto do poder centralista de Lisboa. Daí que pela importância do que é dito à jornalista do JN – e começando por vincar a ousadia do antigo líder da bancada do PS em Guimarães: se o Governo não conseguir fazer aprovar até ao final desta sessão parlamentar [a descentralização], já não o fará mais e falhará no que de mais importante assumiu, em termos estruturantes, no país. Foi o próprio primeiro-ministro que lhe deu o cunho de pedra angular do estado – traga aqui estas palavras perfeitamente esclarecedoras: Portugal recebe fundos de coesão há 31 anos e o norte continua a ser uma das regiões mais pobres da Europa. Alguma coisa não está bem.

Sim!, Miguel estamos (como tantas vezes, aliás) em sintonia: o norte tem tido problemas de afirmação na área politica. Na política há referência, mas não há liderança.

E, meu caro, também sublinho esta tua posição: o processo de descentralização de competência nas autarquias não precisa de mais ruído.

Tomara que todos os autarcas, a norte do Mondego sejam capazes de a interiorizar!

Sabes, Miguel, tens toda a razão quando afirmas que deve haver regionalização, não agora, mas em breve, ou a agregação regional do país vai degradar-se de tal modo que entraremos no registo da reação. O norte pode e deve liderar o processo.

 

Prática escura

 

Foto: jornaleconomico.sapo.pt

Está visto que um coxo evita a companhia de outro coxo.

Virgilio Piñera, in O grande Baro e outras histórias

 

1. Sim! os portugueses pagam ‘à grande e á francesa’ os sonhos e os desejos loucos dos bancos que operam no seu país; um país parvo e louco que adora pagar ‘aos de fora’ que entram por aí adentro feitos salvadores do casco.

Pronto!

 

2. Os bancos estão a adorar a nova festa [concessão de crédito à habitação] e o consumidor está longe de perceber que é ele quem está a pagar a limpeza dos bancos, em suaves prestações durante décadas – João Vieira Pereira, Expresso (Economia), 18.06.16.

Pronto!

 

3. A banca portuguesa devia pôr a mão na consciência pela responsabilidade que tem na crise que Portugal atravessou. Helena Roseta, Dinheiro Vivo, 18.06.16

Pronto!

 

4. Ah! Diz também Helena Roseta que os estrangeiros vêm para cá com rendimentos muito superiores aos nossos e depois têm um tratamento fiscal superfavorável. Isso não é justo.

Pronto!

 

5. Vamos continuar a ser coxos ou voltamos para a ousadia que (noutros tempos) nos afirmou e trouxe até aos dias que cruzamos?