Asfixia democrática

Dez anos depois da crise de 2008, continuamos a viver nos escombros de poderes públicos enfraquecidos, garroteados por instituições internacionais e por mercados globais que só deixam a esses poderes duas soluções: enfrentar essas instituições e esses mercados ou então aceitar os constrangimentos estruturais ditados por essas instituições.

Sandra Monteiro, le Monde diplomatique, outubro 2018

 

de olhos postos no caos e na rotina dos dias fico a escutar a alma do povo

dentro de mim já não resta nenhum vazio

as mulheres parecem aflitas e as nuvens avançam quando?

Acorda! Por onde é que vais?

desculpa, parecendo estar a sonhar; à deriva num delírio de vacuidade, olhava para os dias que não param de surpreender…

Então?

acabei de ler estas palavras de Francisco Sena Santos (sapo, 18.10.15) a crise dos partidos que no centro da Europa fizeram crescer a Internacional Socialista é evidente – e fiquei preocupado.

Por isso falavas do caos e na rotina dos dias?

eu disse isso? se disse – o sono perturba o pensamento, sabes? – estava mesmo escutar a alma do povo.

Sim! Dissestes, mas não estavas em pânico. Daí que te aconselhe a leitura atenta destas palavras do encenador de A Alma Boa de Sé-Chuão, Peter Kleinert, no jornal Público (18.10.19): todos nós, na Europa, devemos estar conscientes da nossa riqueza e perguntarmo-nos se queremos fechar as fronteiras ou encontrar uma solução para o mundo. Depois perceberás que não há mesmo nenhum vazio dentro de ti.

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Confissões polémicas

Mas eu disse diabo? Caramba! Qualquer um, se tiver talento suficiente, pode criar o seu.

Virgílio Piñera, in O grande Baro e outras histórias

 

Duas perguntas que não são – nunca poderiam ser – de algibeira:

1. Como está o crematório de Guimarães?

O crematório não existe, bem sabemos, mas como está o estado da sua obra?

2. E, agora que tudo mudou no governo do senhor Costa, o quartel da Guarda Nacional Republicana (GNR) avança ou fica onde está há tanto tempo?

Assombros de rebeldia

Não se deve prestar demasiada atenção aos aplausos nem aos apupos

José Eduardo Agualusa, E, 16.05.21

 

Ricardo Rio diz que a euro região Norte de Portugal-Galiza tem muito a ganhar com o trabalho conjunto de promoção dos seus recursos comuns.

E qual é a novidade, senhor?

Há muito que é assim. Pena é que, só às vezes, os dirigentes políticos tenham a ‘coragem’ de o dizer publicamente. Sempre, infelizmente!, por conveniências de calendários político-partidários. Perdão! Calendários eleitorais.

Mas, sejamos claros, não é apenas Ricardo Rio, enquanto presidente da assembleia daquela estrutura do noroeste peninsular, são os políticos da região de entre o Ave e o Cávado (ou neste caso entre o Ave e a Galiza); todos. Que, sejamos realistas, copiam os políticos que vão passando pelo centralismo do Terreiro do Paço, aquele poder centralista e centrifugador que tudo impede que sai da sala de visitas de um país cada vez mais pacóvio.

Uma coisa é certa: temos tudo a ganhar em trata o território de forma concertada, como vinca Ricardo Rio.

Esperemos que, por exemplo, no Quadrilátero Urbano, os quatro – gostaria que fossem mais, a começar por Viana do Castelo – municípios sejam capazes de largar os seus olhares umbigais e darem as mãos pelo futuro de uma região que tanto precisa de ações consertadas.

ai os destroços citadinos

cada novo olhar saído do teu silêncio

apático tem um destinatário

incerto

um caminhar discreto; um corpo

passando de mão em mão. nasci

 

para te amar. ser terra – uma vez mais!

 

a liberdade soa a palavras antes de ti

em cada novo olhar abro o horizonte: estou

velho. jamais deixarei

que me digas como são as novas cidades!

 

cada novo olhar é, já se viu, uma composição

branca e sublime

dos movimentos à janela; chã

e tantas aguarelas na parede!

 

continuamos a ser terra?

Aflição de ser pessoa

Foto: Paul Sancya (AP Photo)

Os laçarotes não passam de roupas, que são a marca distintiva do ser humano. Todos os animais devem andar nus.

George Orwell, in Quinta dos Animais

 

1.Em entrevista a Filipe Santos Costa, publicada no semanário Expresso (18.10.13), a antiga secretária de estado dos Estados Unidos, Madeleine Albright, nas administrações republicanas de Ronald Reagan e de George Bush – e a propósito do seu livro “Fascismo – Um Alerta” – fala de uma realidade de tirar o sono às pessoas. Às pessoas que, natural e civicamente, olham reagem e participam no corpo da ação dos dias.

Registo, assim a modos que confirmação de que a senhora é uma visionária: um fascista é alguém que se identifica fortemente com – e fala em nome de – toda uma nação ou um grupo, não se importa com os direitos dos outros, e está disposto a usar quaisquer meios necessários, incluindo violência, para atingir os fins desejados.

O fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente e que é precisa uma mão forte para impor ordem num mundo caótico. É por isso que media corajosos e independentes são tão essenciais à democracia.

2. Admitindo que durante a sua ação política a senhora me pareceu menos atenta às dores do mundo, dou a mão à palmatória e vinco estas suas palavras: nenhuma nação pode ter sucesso, ou tornar-se grande, procurando separar-se da comunidade internacional.

Ups! Que definição e que olhar sobre a instalação do caos que por aí vai!

Claro! Para quem nasceu na Checoslováquia, percebe-se.

3. Como se percebe perfeitamente estas suas afirmações: o fascismo fez milhões de vítimas e alterou as vidas de muita gente na minha geração e, por extensão, dos que vieram depois. E preocupa-me que pessoas demasiado habituadas à liberdade possam assumir que os seus direitos jamais serão ameaçados.

Mas atenção! Há um olhar vestido de esperança: existem muitos líderes na Europa e noutros lugares que estão a esforçar-se para juntar as pessoas e restaurar a fé pública nas instituições democráticas.

 

Ah! Inquieta-me aquilo que parece ser um esforço deliberado para desacreditar o jornalismo profissional e para espalhar confusão sobre a própria definição de “verdade” e “factos”.