Celebrar o ocaso e o outono

foto: cheia no Campo da Feira, 08.08.26

O jornalista [Joaquim] Novais Teixeira arranjou-me uns biscates para o Estado de S. Paulo. Há uma história engraçada com ele. [Ele disse] este é o José Rentes de Carvalho, escritor.

Rentes de Carvalho, E, 16.04.23

 

1. Falando das realidades – mais ou menos parvas e despidas de conteúdo – que atravessam os dias da minha terra – ah!, nunca serei pirata no mar agitado dos salteadores de tesouros cá do burgo – direi em jeito de introito, que sou um daqueles que nada têm para oferecer aos fantasmas citadinos. Não; não direi jamais “que se lixe a sociedade, os políticos e os líderes”; isso era ficar à espera do abismo!

2. Olhando para a minha terra, o que poderei libertar da minha vontade de dizer, será (mesmo) prender um olhar vadio sobre a fragilidade dos líderes. Políticos, partidários, sociais e (ditos) de elite…

Sim, não há líderes de elite em Guimarães nos dias que atravessam a nossa desilusão. Não; não há! Isso já foi! Há tempos. Recordo; pela proximidade em que vivemos: José Augusto Silva – fomos amigos e vizinhos – e Emídio Guerreiro; jogamos umas vezes às cartas lá em cima no lar que tem o seu nome. Com outro senhor que Guimarães teima em reconhecer: Armando Fernandes.

E lideres sociais? Outro Fernandes; o Joaquim. Irmão do Armando. Dois Fernandes de bitola larga. Este Joaquim de obra publicada: em fotografia; uma Guimarães feita imagem do passado. Ou outro Fernandes, Fernando no primeiro nome. Homem da música ou das artes e ofícios. Também com obra publicada, um senhor na alfaiataria vimaranense.

Paro por aqui; hoje e agora. Porque o passado de homens bons de Guimarães é extraordinariamente marcante. E o presente é tão diferente!

Mas o correr da pena (agora isso já não se diz assim, pois não?) traz-me tantas memórias dos Homens de Guimarães.

3. Resta olhar para os políticos de Guimarães.

E que tal terminar por aqui?

É que a (minha) memória já não é capaz de sorver (um) tempo; mesmo que mais recente que se perde no tempo, mesmo sendo até uma memória que tudo faz para trazer aos dias tão parvos que nos vão desfazendo realidades lindas de antanho.

4. É claro que este é um texto incompleto. Muito mesmo! Por isso, antes de terminar, importa vincar um outro nome. Também Joaquim. Santos Simões. Uma grande marca liderante em Guimarães. E é; é mesmo uma marca liderante! As suas marcas cruzaram a cultura, o associativismo e a política, uma coisa que se perde em terras de D. Afonso, não perde? Ou é mesmo erro meu e as associações já acordaram para o futuro?

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Movimento do tempo

Os teatros têm uma responsabilidade de diversidade, de apoiarem e respeitarem a criação artística, e sobretudo de serem um lugar de liberdade para o pensamento divergente.

Paula Garcia, diretora do Teatro Viriato, Expresso, 19.02.02

 

Sempre que posso, faço questão de participar no Guia de Visita que a Casa da Memória organiza uma vez por mês, numa tarde de sábado.

Já assisti a momentos muito, muito lindos. Como o do último sábado, sob a batuta do núcleo de estudantes da licenciatura em teatro da Universidade do Minho (NELTUM), em que os jovens estudantes da UM conduziram as pessoas entre as paredes da Casa da Memória.

E foi excelente.

Fiquei feliz por ver a Patrícia e o Luís conduzindo as pessoas entre provocações. É verdade! A memória também se faz de cheiros (ou odores), sons, coisas que só os dedos identificam.

Que organização no pormenor das coisas!

E, já num outro patamar da casa com memórias em terras afonsinas, a forma como se apelou à memória pelos sentidos e, principalmente, como foram recordadas as memórias das primeiras representações destes alunos de teatro não foi só diferente, foi lindo!

Há sábados que vale a pena sair de casa. E seguir os passos de uma juventude irrequieta, altamente criadora e criativa.

Por detrás da aparência

Mudar o mundo é um poço sem fundo. Sem desânimo, sigo trovador.

António Manuel Ribeiro, E, 19.01.19

 

1. A 16 de abril de 1879 o governo português entregou a Soares Velloso e ao visconde da Ermida a concessão e a construção e exploração do caminho-de-ferro de Bougado a Guimarães, com a condição de constituir uma companhia portuguesa que adquirisse o troço do caminho-de-ferro que a “Minho Railway Company” havia construído entre Bougado e Santo Tirso. Estava dado um passo importantíssimo e decisivo na industrialização do vale do Ave. As indústrias da região passavam a ter condições para alargarem os seus mercados dentro de portas e olhar para o mercado externo, especialmente depois de concluída a ligação por caminho-de-ferro ao porto de Leixões.

2. A história parece gostar de repetir-se. Penso isso ao ler no jornal famalicense Cidade Hoje (19.01.24) um texto com assinatura de Alzira Oliveira e Raquel Fernandes que nos diz que a Medway – Operador Ferroviário e Logístico de Mercadorias escolheu a freguesia de Lousado para criar o maior terminal ferroviário da Península Ibérica. Coisa grande, na verdade, num investimento que [também] implica dinheiro público que foi garantido pelo ministro do planeamento e infraestruturas.

3. Considerados os factos históricos na criação do ramal ferroviário com ligação a Guimarães (já foi até Fafe) da linha do Minho, a partir da decisão tornada pública a 16 de abril de 1879, e a realidade empresarial existente em Lousado, centro nevrálgico (a par da Trofa) nas ligações ferroviárias a norte de Portugal, importa dizer que é deselegante, para não utilizar outra expressão, que André Coelho Lima ouse alimentar o populismo – tão perigoso, mas tão em voga –, a propósito deste terminal ferroviário. Dizer que é bom para a nossa região, mas é preocupante para Guimarães que nós estejamos constantemente a passar ao lado dos grandes investimentos. Guimarães está a perder protagonismo regional, para além de demagogia fatalista, significa o quê para vimaranenses?

Nunca será demais ter todos os dados em cima da mesa quando produzimos afirmações com impacto junto das pessoas, não é? E as suas palavras induzem num tremendo erro de análise; oportunista, na verdade!

4. Daí que olhe para um ponto de vista – bem registado em rodapé às palavras de André Coelho Lima: mais lamúrias sem sentido que comprovam que pouca gente tem noção do que diz, inclusive o PSD de Guimarães. Não sei se faria tal afirmação, mas há uma verdade nas palavras de Gabriel Mendes: o terminal ferroviário a construir em Famalicão acontecerá porque Nine sempre foi, devido à sua posição geográfica, um terminal de cruzamento de linhas. Tal como Lousado, na verdade.

5. Noutro local o dirigente nacional do PSD – terminal de mercadorias em Lousado gera discussão na reunião de câmara, título do jornal O Comércio de Guimarães (19.01.23) com assinatura de Elisabete Pinto – André Coelho Lima utiliza palavras provocatórias e que não são sérias. Como estas: devemos estar satisfeitos por estar próximos deste importante equipamento ou por proximidade também podemos beneficiar. Por osmose.

Questionar o dia-a-dia da autarquia vimaranense é, na verdade, papel de André, mas falar de falta de capacidade de atração para Guimarães com provocações não lhe fica nada bem. Se André Coelho Lima não fosse dirigente nacional de um partido com responsabilidades na sociedade portuguesa – o que, desde logo, implica olhar muito para além da paroquialidade (ou bairrismo, como uma certa vimaranensidade adora dizer) e do lugar de nascimento – até seria de ignorar.

Debate sobre nada

foto: Paulo Dumas (reflexodigital.com)

Os políticos fazem o que podem para se tornar reconhecíveis, mas nem sempre resulta.

Luís M. Faria, E, 18.02.02

 

Aconselho vivamente os vimaranenses a lerem as palavras que Bruno Fernandes, atual líder dos laranjas em Guimarães, publica no reflexodigital (19.01.31). Vale a pena perder uns minutinhos a mitigar um conjunto de palavras, um combinado de ideias que, na verdade, nada dizem.

Não, não é exagero. Dizer que o PSD tomou uma posição firme sobre os constantes adiamentos de projetos estruturantes para o desenvolvimento de Guimarães (…) é dizer nada; rigorosa e definitivamente nada.

Tomar posição é chamar os jornalistas para mostrar um cartaz gigante com a cor laranja do PSD?

E dizer que o atual edil vimaranense só fala do futuro de Guimarães, às vezes e, diz o máximo responsável dos social-democratas em Guimarães, especialmente com uma gestão cirúrgica do calendário eleitoral.

Isto é que é pontaria! Tudo o que possa ser dito de seguida morre; de imediato e não adianta acrescentar que se torna cada vez mais evidente a falta de visão e de capacidade para executar uma verdadeira estratégia de desenvolvimento concelhio.

Esta forma de olhar o dia-a-dia em terras de D. Afonso é fabulosa!

O vazio total. A falta de ideias. O custo – sim!, porque os cartazes custam dinheiro, e o outdoor na rotunda Silvares ainda custa uns trocos! E nem uma solução.

O que não espanta, na verdade! Desde logo, porque o PSD de Guimarães sabe muito bem o que se passa na rotunda de Silvares. E depois porque, sabendo, como sabe, e sentindo-se ultrapassado na sua habitual inércia, o seu líder – atual líder; e de passagem, pelo que já se vai ouvindo em surdina – quis mostrar que está vivo.

Infelizmente os vimaranenses continuam sem saber quem é Bruno Fernandes!

Bom rebelde

Sem o reflexo dos outros, sem as palavras dos outros, às quais responder, não podem,0s construir aquilo a que chamamos ‘nós mesmos’.

Alberto Maugnel, E, 18.04.28

 

O PÚBLICO gosta de provocar e inovar. E isso é muito bom. Lançar o desafio para que os seus assinantes se candidatassem às seis vagas existentes para integrar o seu Conselho de Leitores e aparecerem 366 pessoas a inscrever-se é obra, não é?

Manuel Carvalho, o diretor deste diário de referência em Portugal tem razão: tanta gente interessada em integrar o Conselho de Leitores confirma a necessidade que os leitores têm de estar mais perto dos processo de decisão dos jornais e dos jornalistas.

Num tempo desgraçado onde as falsas notícias são uma festa com foguetes a toda a hora, é tão bom olhar para realidades assim!

Realismo necessário

Foto: Paulo Novais (Lusa)

Há uma crescente boçalidade nas vedetas que o mundo mediático projeta. Muito ruído, muita imagem, muito risco e pouco ou nada para acrescentar.

António Manuel Ribeiro, E, 19.01.19

 

na linha de fronteira; abrimos todas as cortinas

há, por aí e muito latente, um humor ácido; percorrendo os dias do protagonismo

do protagonismo ou das necessidades de protagonismo?

isso, isso, da necessidade de protagonismo.

do tipo este olhar bem apanhado por Pedro Cordeiro (in Do Céu ao inferno, E, 19.02.02): Marcelo rebelo de Sousasem contestar a satisfação de um católico por Lisboa ir receber as Jornadas Mundiais da Juventude, dispensava-se a mistura entre esse assunto e a putativa recandidatura a Belém.

isso, olha, assenta como uma luva

mas é preciso ter fé; muita confiança nos compadres de longa noite medieval; da história.

longa noite medieval?

sei lá! gosto, na verdade, mais destas palavras do Comendador Marques de Correia (E, 19.02.02): Ajoelhado aos pés do solitário leito, rezou fervorosamente para que as Jornadas Mundiais da Juventude viessem para Portugal. Deu o melhor dele, recitando, inclusive em latim, os Padres-Nossos devidos e, em grego, as Ave-marias requisitadas.

ah! o senhor presidente – de todos os portugueses e todos os credos, não é? – afinal quer mesmo ficar. à boleia de tudo: Tenho que ter saúde e tenho de ver se não há ninguém em melhores condições para receber o papa.

Marcelo Rebelo de Sousa, aludindo a duas condições que determinarão se ele vai cede à “grande vontade” que assume de se recandidatar, in E, 19.02.02

Coisas graves

Foto: Tiago Sousa Dias

O presidente da Liga dos Bombeiros não surpreende nunca. Confrontado com a manchete desta sexta-feira do Público, Jaime Marta Soares deu as respostas habituais, do género “todos os bombeiros são sérios”. “Deixem os bombeiros em paz”, foi a resposta do chefe dos bombeiros à auditoria do IGAI que revela estranhas discrepâncias entre o número de bombeiros no local e refeições contratadas.

A.S.L, colocando Jaime Marta Soares a descer. Público, 19.02.02

Falando de saúde

Sem conflitos não há ficção e sem ficção a realidade não se aguenta.

Ana Cristina Leonardo, E, 17.10.14

 

  1. Lei de Bases da SaúdeO PS negoceia com o Bloco de Esquerda, Marcelo exige acordos com o PSD. O governo abriu o pisca à esquerda para virar à direita?, pergunta Pedro Santos Cordeiro, na sua coluna semana no semanário que dirige (Expresso, 19.02.02).
  2. O direito à greve dos enfermeiros não pode ser posto em causa. Mas uma greve tão prolongada como esta, absolutamente invulgar nos termos e no financiamento colaborativo, suscita uma interrogação legitima: o direito a sobrepor-se ao direito básico aos cuidados de saúde dos utentes?, pergunta Amílcar Correia, no editorial do jornal Público da passada sexta-feira.

Portugal é, continua a ser, na verdade, um país que adora escrever o (seu) futuro na pele. Uma escrita tremendamente dolorosa, mas que, dizem os sofredores, fica para sempre. É verdade que há pinturas nos corpos que são eternas; até à próxima morte.

Infelizmente nem todos sabemos como as tatuagens no corpo, podendo ser marcas solenes, se tornam, tantas e tantas vezes, a essência de raivas. De tantas raivas prontas a explodir.

3. Ninguém duvida da importante importância (é intencional este pleonasmo) de uma sociedade livre como é a portuguesa Conviver com a liberdade; até a liberdade do exagero é fundamental, na verdade. Um dia, os exageros cometidos não serão humor ácido, mas um corpo de garoto destruído pelos filhos do vento.

É esse dia – que vem aí, ninguém duvide – que me tira o sono.

Boa consciência

Leio para conhecer a interrupção.

Alberto Maugnel, E, 18.04.28

 

1. O bom povo português tem sempre razão quando diz não olheis para o que eu faço, mas para o que eu digo! É um povo ligado a liturgias, cada vez menos intensas, é certo, mas é um povo que foi enorme

Ou então, num olhar não menos religioso: bem prega frei Tomás!

2. Então o estado português, cujo governo é chefiado pelo senhor Costa, só tem um veículo a gás e 55 carros elétricos? Isto é que é olhar o devir; bem resguardado das preocupações ambientais!

Leio no jornal Público (19.02.02), que o atual governo não cumpre metas para carros poluentes nas novas aquisições. Que se pode, afinal, dizer?

Ah! O ditado popular do Frei Tomás!

Era tão bom que todos lêssemos a peça com assinatura de Helena Pereira – carros a gasóleo, poluentes e com mais de 15 anos!

É o exemplo do estado que vamos alimentando ou que nos vão iludindo com palavras do tipo homilia ritual?